LEITURAS

Com a cabeça num movimento pendular, ele observava os livros em minha estante. Eu, atenta ao movimento, lia aquele homem como um badalo intermitente a buscar as paredes do sino, aquelas que acordariam toda a sua ressonância. Ele ansiava por frêmitos inauditos, pela palavra erudita ou pela dita cuja que lhe acendesse o pavio da inspiração. Talvez por um poema que alicerçasse seu edifício.

Então, cansado de buscar na estante, olhou-me nos olhos e me pediu que escrevesse um poema sobre essa sua sede ante os livros. Usou o tom de quem pedia um copo d'água ao lado da fonte, mas a malícia de quem sabia que eu suaria por todos os poros da fronte para encher o copo, gota a gota, e nunca lhe saciaria.

Foi quando espelhei seu movimento, embora de forma interior, com todos os meus badalos a balançar, à procura de palavras e sentimentos dissonantes para ao menos uma rima ressoante.

Atento ao movimento de minha íris, que me denunciava espelho, ele suavemente me disse que poderia esperar. Percebi, então, que me viu como um dos livros, mas com a diferença de saber-se diante de um livro aberto e sem poeira, ávido por ser folheado por seus dedos gentis, descortinado por sua mente hábil e compreendido por seu coração generoso.

Em pouco tempo, na densidade do meu olhar e na secura de minhas palavras, pôde sentir que essa leitura não seria linear nem fácil, embora lhe prometesse uma história intensa, rica em sentimentos raros e poesia. Isso descompassava as badaladas de seu coração, que oscilava entre o desejo de ler-me e o ímpeto de abandonar-me na estante entre os livros de leitura difícil.

Novamente me espelhei, sentindo-o como um livro e lendo as páginas que me apresentava. Não era um livro tão aberto, mas mostrava-me páginas suficientemente lindas para que eu pudesse ansiar pelo todo, fazendo-o meu livro de cabeceira. Percebi que era feito de um papel mais fino que o meu, em todos os sentidos: comportava palavras mais delicadas e era mais sensível aos descuidos de quem o folheasse.

Foi um dia de intensa leitura, e sei que é só o começo. Agora, desejo que sejamos capazes de ir bem além do primeiro capítulo ou da primeira descoberta, abrindo-nos a nos ler obra completa, mutuamente espelhando algo realmente importante: o movimento amoroso. É só por meio desse movimento que escreveremos nossa verdadeira obra-prima, a quatro mãos e com sólida inspiração.

Esther Alcântara

22/06/2008

8 comentários:

Sonia Regly disse...

Esther,
Vou linkar seu blog, se vc me permitir, gostaria de publicar algum poema daqui. Esse Espaço é muito bom!!!Grande beijão.

Sonia Regly disse...

Oi Esther!!!
Estou com saudades de vc!!! Apareça lá no Compartilhando as Letras.

Abel Sidney disse...

Esther,

Li e gostei muito do seu texto lá no Via6, sobre Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo.

Passeei rapidamente por este blog e vejo que tens grande talento.

Descobri há pouco o Overmundo (www.overmundo.com.br) e por lá encontrei gente com o teu perfil criativo (e profissional). Minha sugestão é que estendas o teus domínios também por lá!!

Abraços

Luís Miguel Rocha disse...

Isto é verdadeiramente lindo. Forte, recatado e belo. Parabéns

M. de Assis disse...
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M. de Assis disse...
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Esther Alcântara disse...
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Esther Alcântara disse...
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