TOCANTINAR


Em Tocantins
correr pelas colinas
adentrar matas ciliares
e os cílios abrir
dos olhos d'água

Em Tocantins
viajar pelas veredas
onde o ouro é lapidado
por mãos tecelãs
capim dourado

Em Tocantins
caminhar pelo cerrado
de babaçus, buritis,
 onde dorme o fogo
 que acorda flor

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Esther Alcântara
(2 jan. 2012)


Aos queridos amigos e parceiros Irineu de Palmira e Silvana Bárbara, que me apresentaram essa terra linda.

TOCANTINS

TOCANTINS


Tocantins
tocam em mim tuas águas
teus raios de luz.
Arco-baleno a bailar
na cachoeira
acho que vou mergulhar.

Bem te quis
terra de mil colibris
caminho do sol.
Flor do cerrado a brincar
cachos de estrelas
acho que vou te cantar.

Esther Alcântara
(30 dez. 2011)

(poema musicado por Esther Alcântara e Werner Viana)

Em frente

Se o tempo para
e o passado ainda persiste
serpenteando 
na sua direção
não pegue esse retorno,
recuse essa estrada!

Vá pela contramão
nem pense em retrocesso
Estenda o seu olhar
para o próximo acesso.

Se o tempo segue
e o presente anda bonito
te situando
siga você também
voando tempo afora,
abrace essa estrada!

Esther Alcântara
LIVROS



Estar entre livros é se perder

num labirinto que liberta


Se um leitor se encabula 
no breu das letras
é errante nos seus sentidos

Se um leitor descortina 
as entrelinhas
é peregrino do pensamento


Estar entre livros é aventura
relento, comportas abertas


(Esther Alcântara)
PATCHWORK



Sem pressa
a gente junta os retalhos
e recomeça

Se encara
seja na chita ou na seda
e não para

Se a linha
entre meus dedos avança
é minha!


Sem medo
a gente renova a trama 
o enredo

Se empenha
ajeita bem os detalhes
e redesenha

Se a vida
merece uma nova estampa
é colorida!


(Esther Alcântara)
ÁRVORE DA FELICIDADE


A felicidade arvorece
sob a luz da minha varanda 
e dia a dia a mim se inclina 
 como se me chamar quisesse. 

Será que tenta me avisar
que o sol tem lambido mais cedo
o orvalho das réstias de luz
e anseia por minhas retinas?

Não nasci para o alvorecer
nem aprendo só pelo amor
mas meus olhos ainda de véspera
se abrem a mais esse arvorecer.

(Esther Alcântara)


ESPERA

O fogo aceso
a porta aberta
a casa certa

o vinho
o pão
o ninho

O corpo ileso
a mente inquieta
o amor alerta

(Esther Alcântara)


FRIO

É novembro
e esse frio dessituado
no tempo
afugenta o calor
de dentro
congela o verso
avesso desestimulado

argumenta com covardia
com meus dias vãos
com os vãos dos meus dias
sem qualquer clarão

É novembro
e ainda nem lembro
do verão
voz do tempo 
esquecida
em minha voz
pouco aquecida.

(Esther Alcântara)

Semáforo

SEMÁFORO



Observo teus sinais
verde, vermelho, amarelo
teu código paralelo

Absorvo teu inverso
no viés da tua voz
paro o trânsito pra nós

Absolvo teus defeitos
crio efeito dégradé
poesia sem ter porquê

Oriento-te em degraus
mas perco-me na tua rua
quando o verde se insinua.

Poema: Esther Alcântara
Imagem: Gregório Gruber
RASANTE


Parei num estacionamento
a céu aberto sem estrelas
sujeita a toda intempérie
nada sujeita de mim


Tentei dar rodas aos pés
abraçar o autoabraço
à mercê da ventania
sem saber velejar


Conheci a tirania
o osso exposto
a carne em transe
e o coração
ainda dá rasante

(Esther Alcântara)
BEL-PRAZER


Hoje eu acordei
só por meu bel-prazer
e nada quis doer

meu corpo alado
quis o corpo teu 
domesticado

minh'alma crua
viu a alma tua
já destilada

nenhum gole chorei
da velha nostalgia,
valha-me a luz do dia!

Esther Alcântara
05/05/2011

PRA COLORIR

Se você só me olhar
como a um molde vazado
planeje me colorir
em vez de me atravessar
agenda em dia nublado


Por favor, use hidrocor
até  minha pele cobrir
carregue na cor da boca
retoque só com amor
tinta de fazer sorrir


Se você só noite achar
mas preenchê-la de lua
vai ter a  minha beleza
da cor que souber pintar
matiz da sua nobreza


Esther Alcântara
Imagem: Google
ISTMO



Não sei se é saga 
ou só um átimo
sei que amor tece

Não sei se é sina
ou se é surpresa
sei que me aquece

Dois continentes
num só olhar
istmo de fogo

Poema: Esther Alcântara
Imagem: Escher

02/05/2011



  
ÁGUAS

Olhos 
rasos d'água
cílios umedecem

  Bocas
cheias d'água
lábios emudecem



Poema: Esther Alcântara
Imagem: Gustave Klimt
VASOS VIVOS



Ela enfeitou os vasos do corpo
com flores vermelho-batom
que ousaram tocar o céu
sem questionar o tom

Veio um misto de lua e de sol
e o cheiro de chuvas de abril
a preencher cada veio 
com força de rossio

Ela acolheu os ritmos da terra
pra só viver nouvelle-vague
dispensa romance-rio
lágrimas de vinagre


Poema Esther Alcântara
Foto do site www.fundodetela.com.br
TÔNUS DE OUTONO



Nestes tons de outono
a poesia manifesta
música de cor
em clima de festa


nos olhos da menina
brilha mais
a menina dos olhos nus


Feito fosse um tônus
o azul que Miró mirou
física do amor
luz que nem piscou


Poema: Esther Alcântara
Foto: Edméia Alcântara
11/04/2011

MARÉ

MARÉ



No vai e vem de maré
de um certo olhar
deitei minha rede
pra namorar
matei minha sede
e quis me molhar.

Ah, ai de mim
Justo eu que nem sei nadar
justo eu que só sei amar
mergulhei nesse olhar mareado
e apanhei bem mais 
que um resfriado.

Esther Alcântara
23/03/2011

COCEIRA

COCEIRA

As fibras da palavra
roçam as fissuras
da língua
que coçam feito casca
de machucado
a assegurar a memória
da dor
quando o corpo lhe dá
as costas

Esther Alcântara
22/03/2011

DESASSOSSEGO

DESASSOSSEGO


Desassossego
A mente tenta elaborar
o que o coração não dá conta.

Cílios baixos
Será mesmo da escuridão
que a luz desponta?


 Qualquer sinal de vertigem
é só pra exercitar
desapego


Toca o telefone
Ou será que é Deus
apertando a campainha?

(Esther Alcântara)
01/03/2011

MEMÓRIA



MEMÓRIA

Desço a ladeira 
da minha memória
e procuro aquela casa
onde nasceu minha asa

Pra onde foi a cor
da minha casa rosa
meu pé de limão rosa?

Refaço os nós
dos dedos na nuca
folhas secas, meu cetim
sete copas sobre mim

Pra onde foi a nuvem
que lenta feito o dia
 dentre os ramos sorria?

Trago comigo
cheiro de terra vermelha
e o canto da minha história
bem plantado na memória

Esther Alcântara
16/11/2010

POR ALGUM SILÊNCIO

Psiu!
Preciso do silêncio
plácido
calado de palavras
cálidas
e gestos que anunciam
cio

Psiu!
Qualquer palavra é vã
vaidade
paisagem intumescida
umidade
geografia que desnuda
rio

Esther Alcântara
14/11/2010

PAZ

Paz
na ponta 
da língua
do lápis
da letra
desponta
Paz

Esther Alcântara
14/11/2010

MILAGRE

MILAGRE


Milagre
este tempero acre
que equilibra o mel.


Alívio do avesso 
amarra na boca
 liberta no peito.


Milagre
o coração sem nuvem
e o rosto sem chuva.


Coragem no espelho
vento em melodia
vela pela vela.

Esther Alcântara
14/11/2010

João-bobo


JOÃO-BOBO


Ele só se deixa
nela
quando ela se deixa
para ele


Ele só se deixa
para ela
quando ela se deixa
nele


Ele só





Poema: Esther Alcântara
Imagem: Igor Villa
Meu querer tem muita força 
porque é bem-querer.
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Esther Alcântara
07/10/2010

Clepsidra


CLEPSIDRA

Se a última gota
do teu tempo
se esgota
a esculpir amor
em pedra dura
tudo para
como um silêncio
pós grito
ou tudo dispara
pra não ressecar
até a fonte
no atrito
feito um frêmito
no peito estanque
inda que aflito.

Esther Alcântara
(31/10/2010)

(musicado por Elisabet Just)