Vida felina

VIDA FELINA

De perto 
todos os gatos são 
leopardos
e todos os fatos
parecem
fardos
mas de longe
tudo parece
um legado
sem manchas
nem dor
no riscado.

(Esther Alcântara)

Foto: Google


Verdes de vida

VERDES DE VIDA

Olhos verdes
de vida
mesmo maduros
de realidade
sonham 
o pó da estrada
e estrelas 
a ganhar de vista.

(Esther Alcântara)

Foto: Werner Viana

Estanque

ESTANQUE

Estancar
o que não sangra
é tão difícil quanto
sangrar 
o que é estanque

(Esther Alcântara)


Sobre a saudade...

A saudade é uma coisa indizível. Das que tento dizer, de teimosa, e travo, num entrave de sentimentos que não se deitam nas palavras, não se rendem. Aí dá aquela coisa que tentam diagnosticar sem estar dentro da gente (e erram, errantes), aquela percepção de que nada precisa ter nome, nada precisa ser palavra... Ah, isso é o que me angustia! O mundo fica bem mais fácil com as palavras, palavra de poeta!

(Esther Alcântara)



PLENA

A vida pede 
peso pena 

Eu respondo 
com a asa toda

Esther Alcântara

Imagem: Favorable omens, René Magritte, 1944.






DOMINGO DE PÁSCOA

Anoitece e é outono.
Respiro muito pólen e penso:
posso ter alergia.

Acontece que é domingo e Páscoa.
Relembro muito amor e repenso:
posso ter alegria.

(Esther Alcântara)
MELANCOLIA

Em silêncio 
a pétala voa
e a névoa distoa
um balbucio

A melancolia 
diva dos poetas
me acaricia
por alguma fresta

Sibilo no peito
já é balbúrdia
mas a azia
já tem primazia

Estarei louca
ou ninguém diria
que a dor do dia 
foi pouca?

(Esther Alcântara)
ALGUÉM É "DI MAIOR"?

Porque falimos

adúlteros
em nossa humanidade
nossos meninos
já não são realidade



Adulteramos 
qualquer ingenuidade
e não amamos
se os brinquedos
são armas de verdade


Porque falhamos
adultos
em educar com qualidade
ferimos nossos meninos
com armas de vacuidade


(Esther Alcântara)
LIVRO DO DESASSOSSEGO
Ainda me lembro
do desassossego
daquele teu livro-Pessoa

gritando do criado-mudo

Queria mãos, olhos
eu pessoa umbigo
no limiar do nosso
desabrigo


Foi assim que te conheci
amigo.

(Esther Alcântara)

"Senti-me inquieto já. De repente, o silêncio deixara de respirar." 
(Fernando Pessoa - ou Bernardo Soares - no Livro do Desassossego)
Poema para meu amigo Ricardo Fornara, que um dia me 
desassosssegou com este livro. Gratidão!


EM SUSPENSO

Isso de estar 
em suspenso
no meio da vida
é o que aviva
o fôlego


Penduro-me
em suspensórios
no varal do céu
e me sustento
ao léu


Viva o meu
Deus dará!


(Esther Alcântara)
GENTE DA GENTE

Invariavelmente
beliscava as bochechas imaginadas 
da criança esquelética 
e disparava: 
como você está magrinha, amada!


Havia muito viço 
naqueles ossos e olhos salientes
mas eram tempos de saúde gorda 
e muito vício
nos olhos dos parentes.


A criança, que não era oca
engolia a língua em dieta de engorda
e ouvia paciente
a falta de assunto daquela boca.
Era gente da gente!


(Esther Alcântara)
MEMÓRIA DOS LIDOS IDOS
Em Antares
sofri um incidente
Veríssimo e morri
pra renascer em Paris
Maga de Oliveira


Mágica me lembrava
ainda tão amiúde
das vielas inglesas
com Copperfield
eu ainda tão miúda


Também me lembrava
do ilha de Crusoé
primeiras léguas
que cruzei a pé
nas nódoas da palavra


Quando me cansei
mergulhei no mar 
dos monstros do amor 
querendo ser Gilliatt 
pela costa de Guernesey


Pelas costas amplas
me atingiram em cheio
os cadernos de Kindzu
e voltei para a áfrica 
desta terra sonâmbula.


(Esther Alcântara)

UNIVERSO CONTR-O-VERSO

Tem dias
que não me contenho
na flanagem
e culpo a paisagem
a qualquer
franzir de senho


Meu trabalho
senhor
é achar atalho
neste universo
tão contr-o-verso!


(Esther Alcântara)
INSPIRADOOR

Ó de casa!

Ode ao benefício 
da troca
sem artifício


Troquemos
o que nos toca
serenos


Toquemos
o que nos tece
obscenos


Pelos em pé
atendem na soleira
à porta destrancada


A casa é nossa!

(Esther Alcântara)
QUESTÃO DE COMPETÊNCIA ORGÂNICA

A inocência
mora no oco 
das árvores
e na plenitude 
das crianças.


Porque ser feliz
é questão de competência
orgânica!


(Esther Alcântara)
FALTURA

Estou farta
de tanta faltura
fartura de falta


Tenho fome
de viver flores 
não fuligem


Furto meu filé
de beleza
e colho o fruto


Como coragem
de ousar afeto
sem blindagem


(Esther Alcântara)
PUPILA

A menina 
imprecisa
dos olhos
palpita
bailarina


Só assim
vislumbra
alumbramento
e se deslumbra
até o fim!


(Esther Alcântara)
MULTIFOCAIS

Nossa memória é sensível
ao ontem e ao amanhã
neste espaço inapreensível 
do hoje.


Adentramos umbrais
imprecisos 
com nossas multifocais
imprescindíveis.


Porque a inquietude
de tantos prismas
é que nos dá a virtude
de pasmar.


(Esther Alcântara)
DECRETO

Nunca perderei tempo
rasgando seda
nem sorrisos


Nenhum mau tempo
fará viver de remendos
minha alegria


Em meu contratempo
também pulsa a vida
sem arritmias


(Esther Alcântara)
SOVA

Sovar a massa
para o pão do dia
e pôr pra crescer
em letargia


Sorver a vida
pelo pão do dia
e tentar crescer
sem liturgia


Porque a seiva
você absorve
mas a sova
não te absolve!


(Esther Alcântara)
IMPORTÂNCIA

Sou lava
em meu vulcão
núcleo 
em meu furacão


Em rimas "raras"
tento me redesenhar
com a importância
do meu cão.


Só assim a saída
a margem pálida
do ser e sorrir
sem razão.


(Esther Alcântara)
DESPERDÍCIO

Há desperdício 
de tônus
em cada lágrima
de não perdão

- sem bônus -


(Esther Alcântara)
O BELO DOS BELOS DIAS

Num belo 
dum dia belo
você se descobre
camada por camada
e tira o pó dos intervalos
recheados de luto
desencanto
e algum ranço
da luta


Desdobra-se
em três ou quatro
e em cada terço
um tom de birra
uma nota falsa
de sândalo ou mirra
um papel desbotado
de sonho de valsa
relíquia do seu fado


Num belo
dum dia belo
você se delineia
e o contorno serena
seu recheio díspar
desabotoa
sua integridade
tão múltipla
tanto que ímpar.


-Esther Alcântara-
ILUMINURA

Vou povoar de cor
a tua iluminura
só pra me capitular
na tua história

(Esther Alcântara)
PESADELOS

Nenhum mistério
abastece de limites
os pesadelos


Cabelo em riste
lá vamos nós
a morrer de asma
noite adentro


até escalpelar 
nossos fantasmas
vida afora


(Esther Alcântara)
MALABARES

O sol a pino
se equilibrava
no céu do menino


O olhar cristalino
se equilibrava
no rosto do menino


O sinal sanguíneo
se equilibrava
na mão do menino


(Esther Alcântara)
Um cego perguntou ao seu cão-guia: o que você está vendo nesta rua? E o cão respondeu: Um monte de gente fazendo cagada ao mesmo tempo. Será que vão recolher? ‪#‎microconto‬
Esther Alcântara
MULA

Vi uma mula
só pescoço
no meio da rua


Do meio fio
mandei a cabeça:
toma que é tua!


Ela recusou
e me deu de ombros:
o pensar não se tatua!


Esther Alcântara
PROSA VERTICAL

Pilhas de frases
não fazem versos
de toda prosa


É preciso antever
o côncavo
de cada palavra
convexa
maturar imagens
à margem da pauta
sonora
beijar o rodapé
na parede da casa
paginada.

Aí se verticaliza
toda sorte de história
sem cortes.

Esther Alcântara
CURATIVO

Seu curativo
de trapo amarelo
foi quase um beijo
desses de cura
que dão candura
à dor dos dias.


Amor de improviso
é coisa assim
vem sem aviso 
e aquarela
o vermelho vivo
do meu riso.


Esther Alcântara
MULHER RENDEIRA

Dama da noite
cortei pano, papel
e um dos dedos 
de mulher arteira


Não fiz fita
Não fiz drama
nem me rendi:
ornei com fitas!


Verti sangue
e mais investi
em meus segredos 
de mulher rendeira.


Esther Alcântara
LEGO

Invento versos
quando me faltam
palavrões


soletro sonetos
em letras soltas
de lego


Brinco
sob o risco
de criar 
com risco
de caneta


Esther Alcantara
BEIJO

Sem trégua

sem anestésico
sem cansaço



Nem estilingue
levo comigo
no meu cangaço


Só teu beijo
arma de fogo
no meu cangote


Esther Alcântara

BUMERANGUE


TERRA IGNOTA

É no abstrato
que se encontra
a mais profunda
concretude


Se impalpável
porque ímpar
terra ignota
espaço extrato.


Esther Alcântara