NO AZUL DO VERDE

E me flagrou
num mergulho
no azul do verde
para além de
ver-me

porque raso
no fundo
seu oceano
a me azular
por engano

mas, bem sabia,
até com peixes
eu merecia
a poesia de um
flerte

Esther Alcântara


ÁGUA CORRENTE

Aguei o passado
na minha aquarela
sem lhe tirar
a cor e o viço

nem as nódoas
ou quimeras
eu borrei

Só pra não correr
o risco de ficar
só pra não incorrer
na dor, por vício

Perdão pincelei
com água benta
que lacrimei

Só pra não ficar
sem perspectiva
só pra não nublar
o plano, o por vir

O amor eu repintei
na água corrente
de um riacho

Esther Alcântara

(Imagem: Rio Atibaia, aquarela de Nelson Caramico, Flickr)
Porque hoje é sábado...

Coceira nos antelhos
Nem sempre é barata
Pode ser circulação
Desde os joelhos
Vontade de falar
Pelos cotovelos

Pode ser um bicho
geográfico
convidando pra viajar
não bicho carpinteiro
reumático
Po(u)sando no meu canteiro
de cactos

Hoje não sou lenhador
Meu codinome
É sonhador

Esther Alcântara
PORQUE UM GALO SOZINHO NÃO TECE A MANHÃ...

Desculpa
se eu não pude ficar
fora disso
se eu não pude sair
de dentro disso

Desculpa
mas não posso dormir
diante do lixo
pra não estacionar
atrás do lixo

Desculpa
se não posso calar
o meu suplício
diante do mundo
e seu suplício.

Esther Alcântara

ERA SUA NATUREZA

Tinha em si
um propósito

Ambientar-se
num universo
distraído
e povoar de olhos
tudo que respira

Mas não fazia 
de propósito

Esther Alcântara

(Foto: Eye of the moon - Arches National Park,
Utah by Lynn Sessions)

A todos os meus amigos artistas.

Imagens da semana301 03
EFEITO GIRASSOL

Novembro chega
na calma cinza de 
nenhum vento

O humor
se movimenta
a favor das velas
mesmo sem porto

Efeito girassol 
a mercê do tom
das nuvens

Esther Alcântara

Basket of sunshine #sunflowers perfect picture for my balck and white kitchen dazzled with sunflowers:
SINTAXE

O amor
tem sua própria
sintaxe:
sujeito e objeto
base
pra que o verbo
reverbere

Esther Alcântara

CHUVISCO

Ciscava o chão
na enxurrada
mas persistia 
- chuvisco -
bicho com fome
descalço 
de pés e pais

Acocorados
dormiam 
na emergência
sonhos a emergir
e não caíam de susto
com os ruídos
do estômago

Esther Alcântara

(Foto: Google Images - autoria desconhecida)

DECANTAÇÃO

Houve desgaste
nas articulações 
nenhum engate
de dedos

Decantou
os ventos do entorno
e os versos 
carentes de anverso

A voz ganhou cor
e o corpo ganhou
corpo mesmo

Esther Alcântara



IMÓVEL

A porta
entreaberta
a poeira
nas dobras dos
vínculos
no console 
de todos os 
veículos

E o peso
insondável
na asa
que não segura
a porta

Esther Alcântara

(Imagem: arte de Gerard Dillon, Door Ajar)


AMOR, OBJETO INANIMADO

Quando falei
de amor
não era sofisma
nem se pretendia
abalo sísmico

Era só meu 
melhor prisma
lambendo de luz
teu rosto
anímico

Pena que não
te animei

Esther Alcântara

(Imagem: Expansão, escultura de Paige Bradley)



DIA GRIS

Na ausência
do sol
 raios de sonho
em cadência
me enternecem
no arrebol
da vida de tantas
intermitências

Esther Alcântara

(Foto: Google/autoria desconhecida)

ESTADO DE COMO

Como engolir
sapos que viram
precipícios?

Como ancorar
destroços num mar
lacrimal?

Como absolver
o que não se pode
sorver?

Esther Alcântara

(Imagem: arte de Paula Bonet)
RECOLHEITA

Eu me inicio
em descabidos
dia sim, dia sim

Na recolheita
não me encolho
nem me agiganto

Meu eu silencia
ao ver na peneira
alguma poesia

Esther Alcântara

(Imagem: Dancing to the End of Love, 
de Rafal Olbinski)



AUSCULTA

Era um som longo 
entrecortado de brevidades 
silenciosas

Não cabia a ninguém 
qualquer incômodo
mas a delicadeza da escuta 
de corpo inteiro
a atenção plena e resoluta 
no absoluto

dos dias
da música
do mundo
da vida

Caberia a todos auscultar
e por contraste
não se ensimesmar
deixar que no peito
batesse o coração
do outro

Mas quem escuta?

Esther Alcântara


Era uma casa uma vez

ERA UMA CASA UMA VEZ

Era a nossa casa
tinha certeza.
Antevia os frutos 
que plantaríamos 
em cada cômodo.

O cachorro 
se via contente
sua molecagem 
percorria solta
toda a arquitetura

Da calçada
contempla agora
com olhos imersos
a liquidez dos sonhos 
que ficaram por viver.

Esther Alcântara

Imagem: Maison, de René Magritte


MUNDO DA LUA

A lua sorri
por um fio
à da Vinci

Vaidosa
na pele do céu
ela se tatua

Esther Alcântara 

(Imagem: Moonlight Sonata, 
de Marta Nardini)



ACABAMENTO

Nunca gostei de nada arrumado demais. Cabelo muito arrumado no dia a dia, daqueles que nenhum fio sai do lugar, sempre me transmitiram alguma tristeza; penso que faltou tomar chuva, sol, vento... viver. 

Assim é também com a casa, que gosto bem arrumada, mas sem ares de loja ou revista de decoração. Preciso ver algumas coisas fora do lugar - um livro aberto, um quadro torto, uma poeirinha num canto, o pelo ou o pulo do gato - para sentir-me à vontade e aconchegada; preciso ver algo de pessoal, que muda de lugar ou forma como a pessoa. Casa, para ser lar, tem de ter um toque de uso, algum sinal de que ali se vive e se curte as coisas triviais, qualquer sinal de presença. 

Também não gosto de ver agenda (escrita ou pensada) com todos os deveres cumpridos. Assusta-me a falta de falha, de lacuna.  Como chegar ao dia seguinte sem o desafio de encaixar uma pendência ou, quem sabe, a ousadia de jogá-la para o alto sem culpa nem desculpa? Como planejar tantos dias previamente e gostar do dever de nada ficar devendo? 

Preciso de uma dose de desarranjo para encontrar harmonia entre o que sou e o que posso ser, entre o que já vivo e o que posso viver. Só vejo a possibilidade de criar - e preciso criar - quando posso ver bem vivos os cabelos, as paredes e os dias. 

Não nasci formatada e nunca aceitei ser formatada. Sou dona das minhas edições e cuido para que os pitacos, mesmo os indiretos, não me engessem; quero estar sempre disposta a uma nova e melhorada versão de mim. 

Estar pronta e arrumada é estar finalizada; estar viva é aceitar que sempre é preciso algum acabamento.


Esther Alcântara
Afeto 

pelo fato
sem trato
pelo sonho
com maltrato
é apego

Amor

ora e vigia
não dorme
ao relento
nem suspira
desalento

Esther Alcântara

(Imagem: "Dancing with fireflies in starlight",





ENREDO

De passagem
não me rendo
à paisagem
da rotina

Todo dia
me enredo
no horizonte
de novo enredo

Esther Alcântara

(Imagem: "Chassis", Erin Case, 2014)

VIDA E VERSO

Não se pode
anular a morte
com um réquiem
nem resumir a vida
num epitáfio

A vida
e seu verso
ode sem fim
onde não existe
da capo

Esther Alcântara
PEQUINÊSES E PEQUENESAS

Enquanto os cães ladram 
(para uma) 
a caravana passa 
(ilesa)
e ladra

Esther Alcântara

PIRACEMA

Era piracema
e rio acima
eu fluía
e ria, ria, ria...
com meu riso solto
entre tuas águas
e tua melodia.

Era piracema
amor em desova
eu inverso
e rima, rima, rima...
na correnteza prosa
do leito do teu rio
em deleite e sina.

Esther Alcântara

(poema e imagem)

RELICÁRIO

Saudade 
coisa doída
redemoinho 
de vazios 
nunca vagos
lacunas 
dos que demos
guarida
nos recônditos 
nunca cômodos
da casa viva
presença 
sem corpo
e plena de cor
em nosso relicário 
de queridos que
se foram breve
a provar 
que só de leve

Esther Alcântara



Não
a fome não é 
exótica
embora o céu 
da boca faminta
pareça mais
gótico

Esther Alcântara​ 

(por menos comoção e mais compaixão)

Foto: A fome em preto e branco, Sebastião Salgado


QUASE NÓS

Faíscas
lamberam o ar
impermeável
sem voz

quase nós
nas labaredas
congeladas
de após

Esther Alcântara

(Arte: Fiery Dance, 
by Andrew Atroshenko)

PLUMAS

Esqueça
qualquer pena
com que a vida
te decore

Aprume
lindas plumas
nas asas doridas
e decole

Esther Alcântara



BOLERO

Amor 
nunca é 
ao meio
nem da pé
meio a meio

Amor é meio

Amor 
ou é bolero
em cheio
ou é mero
devaneio

Esther Alcântara

(Arte: Bound by Love, by Manjiri Kanvinde)

CONTORNO

Mais um
chuvisco
mais um 
rabisco

E o traço
p(rima)
mais um
abraço

Esther Alcântara​

GLAMOUR

Cheiro de terra
na chuva
adentra a janela
e adensa
sentidos.

Entreter-se
entre sentidos
gota a gota
é da vida
glamour

Esther Alcântara​


POR ONDE EU FLOR

Que a primavera
vista de flores
os galhos nus
do outono

Adorne os nós
de toda dor
pétala a pétala
por onde eu flor

Esther Alcântara

(Ilustração de Angéline Mélin)


BOA NOITE

Que a noite
não caia
nem desça
aos tropeços

Que a lua
não cresça
nem encha
tão depressa

Que a gente
não durma
nem acorde
sem sonhos

Esther Alcântara

(Imagem:Pinterest - autoria desconhecida)

QUASE PRIMAVERA

Diáfana
a fresta do dia
quase primavera
vida manifesta

Já é tempo
de refestelar-se
reflete o corpo
faminto de luz

A dor desliza
rio reverso
e pelos poros
o riso floresce

Esther Alcântara

(Imagem: Light and Grace, 
by Daniel Gerharts)


ETC. E TAO

Abreviaste 
o pulso do poema
pela artéria
plural

agora indigesto
o verso
em toda pauta
vertebral

voz etérea
palpita singular
et coetera
e Tao

Esther Alcântara

(Foto: Arno Rafael Minkkinen. 
In: Mymodernmet)