A palavra
é o fermento
no bolo das idéias.
Esther Alcântara


Servida

Servida

Sabores telúricos
e dissabores alados...
Vida, estou servida!

Borra de vinho
na taça da noite...
Vida, estou servida!

Borra de café
na xícara da manhã...
Vida, estou servida!

Chiado do fogo
na folia da memória...
Vida, estou servida!

Grito das águas
no deserto da estrada...
Vida, estou servida

Coisas do ser e da vida
que recebo, que entrego...
Vida, estou servida.

Esther Alcântara
Sinto muito

Sinto muito
por sentir muito
e não conhecer métrica
pra conduzir minha prosa,
doida costura reta.

Meu ziguezaguear
deixo para os versos
onde meu inverno se abriga
e digo o que não sei dizer
mas de melhor sei sentir.

Sinto muito
por ser incapaz
de bordar estrelinhas
em entrelinhas reforçadas
por retoques de retórica.

Meus bordados
adoro dar de presente
a quem não quer embalagem
rótulo sem conteúdo
ou maquiagem.

Esther Alcântara
Lusco-fusco
(reservado para ser musicado por Cardo Peixoto)

Tudo chega a mim
e tudo de mim se vai
sem toque de clarim.
Tudo em fosca luz
no vai-e-vem do dia
sem bala de alcaçuz.

Tudo chega a mim
com horário de partida
sem combinar com fim.
Tudo bem sem lar
sem o amor ser guarida
nem o rio dar no mar.

Eu que me aguente
na sede de sol a pino
eu que me contente
com pôr de sol no destino
e faça a estrela dalva
dançar em céu cristalino.

Esther Alcântara
26/05/2009

Oração De Cor

Que me venha o lirismo
das idéias com cor,
das memórias e alegrias
de cor.


Que seja densa a nuvem
e que raie a chuva
com força intensa
só lúmen.


Que febris gravidades
cubram a brisa morna
da temperança dos dias
sem amor.

Esther Alcântara
18/05/2009

Deserto

Em meu deserto
crio oásis azuis
lagos de lágrimas
em asas de luz
a lumiar delírios
de que me rio
de que me banho...
Será deserto
se cheiro a lírios?

Esther Alcântara
17/05/2009


APELO

De mosaicos

revesti minha pele
com cores vivas
coração e coragem.
Não me peça filmes
em preto-e-branco
nem me dê placebo
açúcar ou coca-cola.
Sou mais uísque
sem gelo nem apelo
ou vinho seco
na língua molhada.
Dê-me dose dupla
ou nada.

Esther Alcântara
10/05/2009

Viés

VIÉS

Vou andar descalça
por trilhas, descaminhos
enquanto houver uma brasa,
pegadas em desalinho
colher-te meu bem-me-quer
e enfeitar a minha casa.

E se vier revés
E se houver redemoinho
E se não der pé
E se for outro caminho...

Vou andar descalça
ainda assim, bailarina
teimar a ponta dos pés,
entre ferida e ferina
armar um jeito qualquer
te amar até de viés.

Esther Alcântara
Chegaste

Chegaste a mim

como chuva no agreste
a despertar o hálito da terra
e verter dormência de estio
em florescência de cio.

Chegaste a mim
como mudança de casa
a deixar sobras de sombras
e acomodar toda esperança
em luz de nova nuança.

Chegaste a mim
Chegaste, enfim
Chegaste e ouviste sim
Chegaste além do fim
Chegaste a mim.

Esther Alcântara
8/2/2008

Belo Fato

Cuidado, moço

que a vida é tacanha

quanto mais tu foge
mais te assanha
quanto mais tu vive
mais te arranha

Vai ver, quer voar
Vai voar, quer viver
Quer viver, quer voar
Quer voar, quer viver


Cuidado, moço
que a vida é senhora
se tu não te apega
vai-se embora
se tu não te apressa
vai-se a hora.


Esther Alcântara
03/05/2009

INTERLÚDIO

Existe um intervalo

bem (ao) largo de mim
e além de você
em que acerto o tom.


Na primeira f(r)ase
sou luz de relâmpago
e você nem vê,
contempla o alarido.

Na f(r)ase que segue
sou câmara lenta
criança que dorme,
jamais marcha a ré.

No meio perco(rro)-me
pra depois me achar
sem demais suspiros
e me ultrapassar.

Esther Alcântara
29/03/2009




Prêmio: blog feminino e inteligente


Recebi este prêmio de Vivi Crespo, de
http://crespo-escritospersonales.blogspot.com/
Agradeço muito, Vivi.

O prêmio propõe um desafio:

"Escrever um conto, poema, definição... o que quiser, desde que inclua as palavras vida, amor, literatura, sexo, viagem, cinema.

Depois fica mais simples: "Passar para 6 blogs de mulheres. Mostrar o link de todas e avisar para cada uma em seu blog." Hummm... certamente mais de seis merecem o prêmio!

Bem, vamos à parte mais difícil:

PRÊMIO

Ela piscou duro e abriu os olhos forte e rapidamente, como alguém que arma um guarda-chuva às pressas, já sob a chuva. Manteve-os bem abertos para certificar-se de que não era sonho, viagem astral... Também verificou se não estava no cinema nem incorporando algum personagem da literatura romântica. Eles às vezes possuem as pessoas que têm necessidade de adocicar a realidade.
Beliscou-se e, pasma, deu-se conta de que era vida real e era com ela mesma que acontecia. Ela que não acreditava mais em contos de fadas, ela que não chorava com beijo de novela, ela que não gostava de comédias românticas, ela que nem esperava mais o amor...
Estava sob a chuva e haveria de se molhar! Era o que lhe revelava aquele olhar doce e tempestuoso, que não permitia a fuga de seus olhos de coruja assustada.
Descrente, fez alarde ao coração, armou todos os guarda-chuvas mentais que conseguiu e passou a remendá-los a cada respingo que a atingia na presença daqueles olhos.
Foram meses de remendos inúteis, pois seus sentidos se deliciavam com os respingos e pediam cada vez mais, mais, mais... Até que o sexo acordou, lentamente, a partir da exuberância do amor. Com a mais íntegra e mútua entrega, ela foi deixando para trás todos os medos que se escondiam sob farrapos.
E foi assim que, vencida, ela venceu. Aprendeu que os verdadeiros encontros tem o poder do inevitável e o vigor do inabalável. Representam a rara experiência do amor, prêmio mais sublime da existência.

Esther Alcântara


2ª Parte:
Escolho para receber o prêmio:

Márcia Luz, por http://poemasdemarciasanchezluz.blogspot.com/
A garota do copo d'água por http://agarotadoquadroderenoir.blogspot.com/
Iêda Lima, por http://blogcaleidoscopio.blogspot.com/
Sônia Gegly, por http://blogblogs.com.br/blog/compartilhandoasletras-blogspot-com
Camila Lispector, por http://camilalispector.blogspot.com/
Amadora, por http://changingillusions.blogspot.com/
Luciane Lopes, por http://apeledopoema.blogspot.com/

Em trementes

Entrementes traço
retas no redondo
vôo marimbondo
beijo beija-flor.

Entrementes tremo
veias estremeço
veios pelo avesso
afogo no fogo.

Entrementes trinco
rompo meu allegro
quase desintegro
sísmica me cismo.

Entrementes troco
verbo pelo verso
sobre o submerso
mel amor emerge.

Entrementes truco
foco a estrela rara
visto a vista clara
vértice horizonto
.
--------------

Esther Alcântara
02/03/2009

Carnaval sem fantasia

Saudade
antes da ausência
medo
antes do escuro
solidão
antes do abandono
lágrima
antes da tristeza
cinza
antes da quarta-feira.

Esther Alcântara




Idílio

Você, meu idílio
em verso e vida.
Paixão desmedida
delírio meu, você.

Esther Alcântara
13/02/2009


TEMPO DE GERMINAÇÃO

Nas linhas te sonho
nas entrelinhas te exponho
e fixo teu olhar menino
como se o emoldurasse,
quadro vivo que me olha e
mesmo que não me veja
adocica o meu olhar,
cultiva meu melhor.
E enquanto te sonho
percorro mais leve
na linha e na lida
este longo talvez.

Poema:Esther Alcântara
Imagem:Gustave Klimt
24/10/2007

Tricô

Matizes e tramas
ousam mantras
visuais.

Pouco a pouco
ponto a ponto
do tédio floresce
transcendência.


Foto e poema: Esther Alcântara
Flor da Chapada Diamantina
(07/10/06)

NÃO IMPORTA

Não importa se é segundo
ou se beija o infinito,
importa que é profundo.

Não importa se é chuvisco
ou se vira um dilúvio,
importa que me arrisco.

Não importa se é suave
ou se machuca a pele
importa que é a chave.

Não importa se é dança
ou segue em passo solto
importa que é bonança.

Não importa se é loucura
ou se é casa arrumada
importa que me cura.

Esther Alcântara
18/01/2009


TUDO

Não me habituei
a me abotoar,
tua carícia me rasga
a pele afoita do peito.

Nada em mim é metade
nada se faz sorrateiro.
Tudo em mim tem verdade
tudo o que dou vai inteiro.

Não me acorrentei
ao medo de amar,
teu peito sem lascas
é minha carícia maior.

Esther Alcântara
15/01/09

SONHO
Depois do sonho
resta o gosto
a candura
o açúcar na boca
no céu exposto
a dissolver
a derreter
em chuva terna
a embalar
a acalentar
na face à mostra
o riso à tona
a doçura
de quem ama
enquanto sonha.

Poema: Esther Alcântara
Imagem: Gustave Klimt
15/01/2009


ENCRUZILHADA

Íris toda lume

enredo em meu ensejo,
pressinto teu beijo.

Fagulha na geada
agulha em meu costume,
penso-te encruzilhada.

...............
Esther Alcântara
18/10/2008

ENCANTAMENTO

O olhar se acopla no olhar

despindo nossos desvios.
Os lábios calam querer,
em palavras alvoroçadas
roçam desejos vadios.

A nuca se insinua, nua
vestindo-me de arrepios,
ruas me reconhecem tua
cantam-te em meu corpo
Suave e arredio.

O abraço só vai embora
Tentando ficar, ardente
Doce, no olho demora,
vitrine do meu desejar,
da urgência de amar.

O olhar fazendo sem dó
o amor que a gente não fez
e a lua querendo brincar
no chão desta lucidez,
se embriagar de sonhar.

Esther Alcântara/Luciane Lopes
(musicado por Cardo Peixoto)



Com verso

falo muita coisa
converso com Deus
e o mundo.

E o mundo
fica menos taciturno
ou simplesmente
divino.

...........................
Poema:Esther Alcântara
Imagem: Van Gogh
09/12/2008

Linhas da vida

Com cerzidos no passado
e alinhavos do futuro
sigo pelas linhas da vida
nas mãos nuas, concavidade.

Faço delas minha urdidura
ora do fio macio da seda
ora de ardor, arame farpado
presenteando-me na trilha.

Andarilha, serpenteando
pelas pautas da minha trama
e sem fazer nó, faço a cama
na poética tessitura.

......................
Esther Alcântara
09/12/2008




PALAVRA NO AR

Não deixe a palavra cair

não, ao rés do chão
nem vá em vão visitar
a dissonância das horas.

Não deixe a palavra ruir
pelo sim, pelo não
nem vá um dia calar
novas histórias de outrora.

Só deixe a palavra florir
sim, mil letras em botão
pra com amor enfeitar
nossa paisagem de agora.

......................
Esther Alcântara

22/11/2008

PULSO



Lateja
na veia poética
alguma virilidade
feminina,
misto de aguardente
e água-de-flor.

....................
Texto: Esther Alcântara
Imagem: Kelly Rai (Google)

MESA POSTA

Se enquanto é dia

ando pelas bordas
a servir-me da vida
à la carte
e sem sobremesa,
na noite adentro
contornos de beleza
à la arte
e como sonho.

Texto: Esther Alcântara *13/10/08
Arte: Willian Gamma (estátua viva/figurino)

INTENTO

Solo na rota do sol
a solavancar
nos pulos do pulso.

Só avanço
pedra ante pé
sopés e cimos afora.

Braço sem laço
não me apavoro
e nado no vento.

Adentro o intento:
planta de brejo
broto a contento.

....................
Esther Alcântara

11/09/08

Imagem: René Magritte

LEITURAS

Com a cabeça num movimento pendular, ele observava os livros em minha estante. Eu, atenta ao movimento, lia aquele homem como um badalo intermitente a buscar as paredes do sino, aquelas que acordariam toda a sua ressonância. Ele ansiava por frêmitos inauditos, pela palavra erudita ou pela dita cuja que lhe acendesse o pavio da inspiração. Talvez por um poema que alicerçasse seu edifício.

Então, cansado de buscar na estante, olhou-me nos olhos e me pediu que escrevesse um poema sobre essa sua sede ante os livros. Usou o tom de quem pedia um copo d'água ao lado da fonte, mas a malícia de quem sabia que eu suaria por todos os poros da fronte para encher o copo, gota a gota, e nunca lhe saciaria.

Foi quando espelhei seu movimento, embora de forma interior, com todos os meus badalos a balançar, à procura de palavras e sentimentos dissonantes para ao menos uma rima ressoante.

Atento ao movimento de minha íris, que me denunciava espelho, ele suavemente me disse que poderia esperar. Percebi, então, que me viu como um dos livros, mas com a diferença de saber-se diante de um livro aberto e sem poeira, ávido por ser folheado por seus dedos gentis, descortinado por sua mente hábil e compreendido por seu coração generoso.

Em pouco tempo, na densidade do meu olhar e na secura de minhas palavras, pôde sentir que essa leitura não seria linear nem fácil, embora lhe prometesse uma história intensa, rica em sentimentos raros e poesia. Isso descompassava as badaladas de seu coração, que oscilava entre o desejo de ler-me e o ímpeto de abandonar-me na estante entre os livros de leitura difícil.

Novamente me espelhei, sentindo-o como um livro e lendo as páginas que me apresentava. Não era um livro tão aberto, mas mostrava-me páginas suficientemente lindas para que eu pudesse ansiar pelo todo, fazendo-o meu livro de cabeceira. Percebi que era feito de um papel mais fino que o meu, em todos os sentidos: comportava palavras mais delicadas e era mais sensível aos descuidos de quem o folheasse.

Foi um dia de intensa leitura, e sei que é só o começo. Agora, desejo que sejamos capazes de ir bem além do primeiro capítulo ou da primeira descoberta, abrindo-nos a nos ler obra completa, mutuamente espelhando algo realmente importante: o movimento amoroso. É só por meio desse movimento que escreveremos nossa verdadeira obra-prima, a quatro mãos e com sólida inspiração.

Esther Alcântara

22/06/2008

Revés

Nódoa na língua
ungüento de um revés.

Mágoa que míngua
quase refeita
reinvento-te em verso.

.....................
Esther Alcântara
01/11/08
NOSSO IPÊ AMARELO

Ele olhava nossa casa de cima, presenteando-nos uma vez por ano com milhares de florescências ensolaradas. Era nossa bandeira de alegria, nosso selo com a vida, apesar dos sapos que ela fazia pular em nossa garganta e não desciam macios. Especialmente para minha mãe, que claramente refletia nessa árvore seu desejo de mais vida, para ela e para seus queridos que estavam indo embora. Naquela época, pensávamos que ela jamais permitiria que o ipê fosse cortado, mesmo que houvesse um motivo justo. Era um de seus tesouros, além das tantas orquídeas. Durante suas floradas, o vento tossia e levava muitas flores para o chão. Nunca gostei de varrê-las, pois teciam um tapete de um amarelo luminoso e alegre, que muito mais enfeitava do que sujava nossa casa quase de vidro. Na mesma época em que a casa começou a esvaziar, nosso ipê deixou de florir, como se estivesse triste e cansado. Então minha mãe permitiu seu corte, já cansada lutar por vidas. No pequeno tronco que restou, ela logo pendurou suas lindas orquídeas, com seu dedo verde machucado e seu desejo quase poético de perpetuar sua florescência. No prazo de um ano, perdemos dois familiares. Pouco depois disso, vieram dois novos sobrinhos: um casal de gêmeos que nos trouxe a certeza de que a casa nunca ficaria vazia e sem vida. Foi quando o nosso ipê amarelo reagiu e, pequenino como os gêmeos, começou a brotar novamente, enchendo-se seu toco sobrevivente de folhas novas. Ele parecia decidido a assumir o espírito de fênix de nossa família e renascia, obstinado. Mas ainda não bastava. Minha irmã, que por muito tempo cuidou dos que se iam, encontrou uma vida em plena florescência - o Pedrinho, uma criança grata pela vida e que encheu de graça a vida de todos nós. Nunca mais tivemos novas floradas. Talvez nosso ipê tenha percebido que já não precisávamos delas, pois nossas crianças têm o sorriso ensolarado de suas flores e nos ajudam a compreender e aceitar o ciclo da vida.

Esther Alcântara
20/02/2008


Curiosidades:

Ipê-amarelo é o nome popular de algumas espécies de árvores da região Sul e Sudeste do Brasil, pertencentes à família botânica Bignoniaceae, gênero Tabebuia.O nome científico Tabebuia, de origem tupi-guarani, significa pau ou madeira que flutua. É denominada, pelos índios, de caxeta, árvore que nasce na zona litorânea do Brasil, cuja madeira íntegra (inatacável) resiste ao apodrecimento.


Visão holística:

"O ipê perde todas as suas folhas, para melhor recolher e concentrar todas as suas forças, pois é a partir da árvore esgalhada e nua que se transforma num exuberante florescer, que serve de aviso e esperança de que as chuvas de bênçãos estão por retornar (...) São mensageiros do céu, do Sol e das chuvas, que avisam pontualmente que a Alma Universal já descansou o suficiente e se sente preparada para um novo ciclo de experiências externas. São, pois, clarins luminosos que indicam o fim de uma etapa e o recomeço de outra."

(Do livro As Essências Florais de Minas: síntese para uma medicina de almas, de Breno M. Silva e Ednamara V. Marques).

Em Macunaíma, de Mário de Andrade, ainda encontramos:

"Os ipês de beira-rio relampeavam de amarelo e todas as flores caíram nos ombros do moço Titçatê guerreiro de meu pai."



EM TUDO DAI GRAÇAS!

POESIA

Pólen que
no outono rosa

convida a vôos
curvilíneos

Flor que
só de teimosa

enfeita os vasos
sanguíneos

Proeza que
por nada prosa

derrete em dedos
longilíneos


...................
Esther Alcântara
30/05/2008


SOBRE BESOUROS E AMANTES

E um raro besouro dourado batia à janela insistentemente. Com essa frase Neto concluiu, em tom misterioso, seu relato sobre uma famosa vivência de Jung: uma paciente lhe conta que sonhou com um escaravelho dourado. “Símbolo de renascimento, para os antigos egípcios”, pensa ele. E um barulho na janela interrompe o vôo de seus pensamentos. Ele se volta e, perplexo, um raro besouro dourado batendo no vidro, insistindo por uma chance de entrar.

O que entrou, e para a história, foi um exemplo perfeito de sincronicidade.

Rosa ouve Neto e se vê com besouros atrás da orelha. Espreita discretamente a janela, acalenta zunidos...

Ela havia contado a ele algumas experiências suas desse gênero, por isso ele lhe falou de Jung. Ficou feliz por fazerem sentido para alguém e — melhor ainda — por poder ouvi-lo, com seu jeito bom de aprofundar-se com simplicidade, adentrando seus mistérios e ousando brincar com ela de desvendar os da humanidade.

O filme que veriam naquela noite foi que motivou o assunto: Os amantes do Círculo Polar. Nele não faltavam idéias circulares e sincronicidades. Corpos colados, lamentaram seus nomes não serem palíndromos, como os dos amantes do filme, mas... Tantas eram as outras coisas em comum! Colecionavam palavras perdidas no tempo, plenas de aconchego e poesia, e recolhiam-se nelas até que se calassem os besouros da mente. Amantes? Talvez. Giravam, giravam... E acabavam juntos, compartilhando a coleção, o silêncio e a nudez da próxima cena.

No dia seguinte, Rosa entrou na Livraria Cultura apenas à procura de outro filme que lhe havia sido recomendado.

Mesmo tendo alguma pressa, não resistiu e embrenhou-se pelas estantes de livros, tentando convencer-se de que seria só de passagem.

Pegou um livro de título desconhecido, gosta de surpresas.

Ao abrir aleatoriamente o livro, uma surpresa de eriçar os pêlos: deparou com a mesma história do besouro de Jung ouvida na noite anterior.

Desta vez teve medo de levar os olhos à janela.


Conto: Esther Alcântara - out./2008
Foto: João Sargo - Imagens Google (recorte)

Ps.: Este conto está concorrendo no concurso Contos da Cultura, que tem como um dos regulamentos a citação da Livraria Cultura.

ASSOPRO

Assopro-te dor graúda
de lembrança em letargia
Assopro-te canto do peito
que em mim não cabem
mais agudos.


Assopro-te planta miúda
dos jardins da inocência
Assopro-te vestígio de pele
que em vão me vestem
tais fragrâncias.

............
Esther AlcântaraFoto: Ricardo Zacho
Ele
Reinventava o céu
a seqüência dos dias
e os ciclos lunares.
Ria por ver tolice
em sentimentos rotos
de folhetins e bares.

Ela
Reaquecia o sol
ou sótãos imaginários
num entra-e-sai de si.
Relia receitas e romances
fazendo-se de refeita
indiferente aos umbrais.

Esther Alcântara
CORDAS

No cinza da tarde

cordas pintam o mundo
acordam nuanças musicais

Música amiga
música que abriga
música que sabe colorir

No cinza da tarde
cordas em meu peito
acalmam-se entre acordes

..................
Esther Alcântara

(A Camilo Carrara, pelo seu sublime dedilhado, que dá cor a esta minha tarde cinza)

Dores da pena

Se eu pudesse parir
Rocamadour

aliviaria minha pena.

Viveria aflições de parto
sem implorar
o perdão da palavra.

acocorada de dor e prazer
empoleiraria-me nela
com latinidade e lascívia.

Esther Alcântara

Nota: Rocamadour refere-se a um personagem do livro O Jogo de Amarelinha, de Julio Cortázar.
A retina amorosa
prossegue estrábica
e manhosa.
Nu mistério
em seu marejar
de áridas ausências
e alguma abstração
a embainhar
a rotina preguiçosa.


Esther Alcântara

AH, CIDADE!


Um pulso histérico

de concreto e fuligem

intumesce a lágrima

que inunda a cidade.

Em todas as manhãs

há vestígios da noite,

nas noites alvorece
invisível amálgama
de solidez, solidão

e alguma paz.



Poema e foto: Esther Alcântara

SÓ SENDO

A palavra é solidão

o gesto é solitário
o olhar, só soslaio.

Mas tudo é tanto
que meio tonta
já nem me caibo.

Esther Alcântara

VÔO 2008

Nas nuvens

a página em branco
do novo ano.

No azul

a paisagem escriba
de novos planos

Esther Alcântara

MAIS UM DEZEMBRO

Dezembro,

cheguei aqui de repente
sem ver o curso do tempo
tanta a neblina na mente.
Dezembro,
lembro de ter feito planos
elaborado mapas, meios
algo fora do prumo.
Dezembro,
sem ter nas mãos o leme
vale-me algum gingado
e o vento me leva, leve.


Foto e poema: Esther Alcântara

ENTRAVE

Na tela branca
que se quer página
a palavra que trava
a bola na trave
o entrave...
Cava o poeta
um gol de letra?

Esther Alcântara
Quando pingo é i

Chuva na janela
eu aqui e você
noutra atmosfera.

Esther Alcântara


Nada além, nada além de uma ilusão...

Alguém me disse que os olhos são a janela da alma. E quando aquela alma debruçou na janela, eu era o parapeito pronto a receber seu peso e consistência. Nada mais me importou, nenhuma palavra boa ou duvidosa poderia dizer algo mais importante do que o descortinado por aquele olhar.
Acostumei-me a passear todos os dias sob essa janela e a oferecer-me para novamente apoiar sua densidade, agora minha mais grata descoberta. Mas como lhe falta tempo para esse doce debruçar na janela, brinco de ilusão: espio pelas frestas da morada em uma imagem que traz o seu mirar e aprecio furtivamente seu interior. Finjo por instantes que essa morada se descortina pra mim, que se abre espontaneamente, que é possível que sua sensibilidade alcance o meu olhar debruçado em minha janela a lhe espiar de longe, que nosso entorno é só entorno, que minha alma também alcança seu peito, um parapeito quente e ávido de sentir.
Quando me refaço, há apenas uma foto em uma tela de computador. Meu peito dói e em meus olhos o que debruça é uma alma dolorida e líquida, sem parapeito perfeito e ardente para não deixá-la assim, a escorrer.
Já sem alento, mudo o foco, miro o horizonte e assobio uma antiga canção: Nada além, nada além de uma ilusão...

Texto: Esther Alcântara
Imagem: Moça à Janela (Salvador Dalí)


CAFÉ COM FRUTAS
Tangerina, goiaba, pitanga, jabuticaba, manga, carambola, cajamanga... Caramba, cajamanga!!! Cheguei a sentir o gosto, o cheiro, a memória na ponta língua a aguçar meu adormecido paladar de criança crescida.
Estávamos em um charmoso café, no centro de uma metrópole, e a grande surpresa era o assunto da mesa ao lado, remetendo-me para tão longe dali e para paisagens tão verdes.
Gosto da vida urbana, gosto desta cidade... Mas as viagens do imaginário quando menos esperamos são as melhores, principalmente quando conseguimos vivenciá-las com o corpo todo e com todos os sentidos.
Minha amiga havia ido ao banheiro enquanto aguardávamos o café. Sua companhia era agradável, mas talvez se eu não tivesse um momentinho a sós comigo mesma não abriria os ouvidos para aquela melodia de pomar.
Pensei na infância, mas pensei também no presente e nos dias por vir. Pensei nas frutas que como e nas que não como. Pensei no meu bonsai de pitanga que nunca foi pra frente. Restaurei a velha casa com quintal que sempre habitou meus sonhos e cheguei a sentir o cheiro de flor de laranjeira no hálito das manhãs dos meus novos dias. Em segundos, uma deliciosa viagem pelo tempo e pelos tantos cantos da terra que eu bem sei que ainda posso semear.
Quando o café foi servido e a minha amiga retornou à mesa, o café já era mais especial e a amiga mais querida, pois meus olhos de viajante solitária haviam se lembrado que a paleta e o pincel estavam em minhas mãos, para dar a tudo o colorido que bem quisesse.

Esther Alcântara


TECIDO DE PALAVRAS

No embaraço dos fios
da trama da navalha insana
de quem sangra e ama
o fluir de algum rio
ora lânguido ora loquaz
ora ao mesmo tempo tudo
a desaguar em poesia.

Esther Alcântara
Não sou lá grande artista, amor
mas trago a arte à vista
e este jeito escancarado
de embalar com poesia.

Não sou estrategista, amor

mas tenho arte e manha
pra não querer ser nada

que não seja tudo de mim.


Esther Alcântara
QUINQUILHARIAS

Gavetas cheias de reforços
declaram tendência a declive
carência de en-cantos livres.

Em todo nada santo dia

dormem e acordam em fila
pendências hereditárias.

Pergunto onde me cabe
e até onde cabe a mim
sem que eu me acabe.

Esther Alcântara
PALAVRA

Pelos poros da palavra
transpiro lágrimas
e alegrias
desopilo porões
e me abasteço de alma.

Só pela palavra
alguma liquidez certeira
antes do legado pó.

Esther Alcântara



ESPERANÇA

Quase esquecia
a ordem dos dias

o caminho da porta
e o pó na soleira.

Conversava com traças,
damas de histórias raras
em páginas rotas.
A esperança já usava ray-ban
e nada do filho de cuca legal.
Foi quando um quase amor
chamou na sala de espera:
moça, agora é sua vez!

Esther Alcântara
CICLOS

Eu fecho ciclos

como se os abrisse,
num alarido ardente
que precede ausência,
mas fecho.

Eu fecho ciclos
com música, poesia
e alguma valentia,
com nó e dó de peito
mas fecho.

Esther Alcântara

Sobre estas madrugadas,
quando fizer sentido
me avise
quando fizer sentimento
me beije
sob outras madrugadas.
Só não espere
meu coração congelar
a alvorada.

Esther Alcântara

NOITE DE FREVO

Teatro cheio e a orquestra lança um frevo assanhado. Vagner Tiso se empolga no piano, enquanto eu, no balcão superior, tenho sanhas de um bom salto. Penso na morte ao ritmo do frevo, com regência... Minha barriga reage com calafrios ao imaginar o vazio do salto ou o salto no vazio. O verdadeiro climax? Talvez seja quando a vida está por um acorde e a morte é quase um golpe de sorte! Porque se
a morte não vem antes que a música se acabe, é preciso prosseguir, à mercê da falta de magia. Soam os clarins e percebo que minha morte se atrasou, perdeu o momento da anunciação. Bem, talvez ela não tenha sensibilidade artística, pois vir me buscar justamente durante um frevo? Quer mais vida que no frevo? Morte confusa, vida difusa... Grudada na cadeira, algo em mim levita. Minha vida se alimenta do frevo, embora eu nem me favoreça da alegria.

Esther Alcântara
INSENSATEZ

Conheço-te

e reconheço-te
resposta
antes da pergunta,
música
antes do som,
saudade
antes da vivência.

Onde andarão meus pés?


Esther Alcântara





BOM DIA

Vou dormir
com a graça do bom dia
embora você me diga
boa noite.
Um minuto de silêncio
às horas que ora
quase gritam
no meu sorriso.

Esther Alcântara


TEMPO DE SABEDORIA

Na pirueta
dos seus dias azuis
do chão pendiam
folhas secas
enquanto nos galhos
pousavam as verdes.
Seus olhos passeavam
no céu de nuvens
ainda de algodão
enquanto se desfaziam
nuvens de algodão-doce
no céu de sua boca.
Abalava as fadas
mandando ir as favas
todos os pesadelos.


Esther Alcântara

ESTE MEU CORAÇÃO

Um dia há de ser objeto
este meu coração sujeito,
um dia há de colher direito
mesmo que escolha canhoto.

Será mar de sujeito afluente
não mais quimera, represa
com barcos de sonhos
e barragens de concreto.

Esther Alcântara

RAINHA DA FESTA

Se teu corpo mirassem

meus olhos de louva-deusa,

consumiria teus olhos
com paladar de sobremesa.
Mas este olhar abelhudo
é de rainha da festa
e não aceita fraqueza
nem beleza com arestas.

Esther Alcântara

OUTONO

Ah! Esta brisa fria...
Alguns vacilos
e as folhas caindo
da vida

dos livros
que ainda nem escrevi

Esther Alcântara

INSÔNIA

O silêncio do quarto
convida minha quietude
pra conversar.
INSIGHT
no silêncio do quarto
minha inquietude resolve
me acordar.

Esther Alcântara

TEMPO

Reter o tempo

ou abstrair-se dele
por completo.
Só assim esse bolero
jazz
só assim rock´n roll
eternamente.

E um dia a gente vê
que já nem ouve,
mas houve?
É só o que importa.


Esther Alcântara
VIOLETAS VIOLETAS

Sobre a mesa
violetas em botão
violam minha palidez
feito holofotes
de olhar violeta.
Alguma cor
alguma umidade
na noite árida.

Esther Alcântara






Não coma de mim apenas a carne
não me consuma tão pouco.
Tampouco me alimente
da fumaça efêmera do teu prazer
que me traga e me evapora.
Traga-me ao menos um elemento
capaz de alcançar o cerne do meu prazer
e saciar-me a fome de não mais ter fome.


Esther Alcântara



NADA

Cacto seco e urtigas
no jardim
formigas na boca viva
veneno acridoce
no olhar.

Nenhum lugar é lá
nenhum tempo é agora
ninguém é a pessoa.

E todas as cantigas
só lembram,
nada é presente
nada se pressente
noir.

Texto e foto: Esther Alcântara





ESPELHO

Recebo e reflito
o ritmo do teu pulso
o medo do teu medo
o desejo do teu desejo
o brilho da tua estrela
o latejar da tua dor.

Esther Alcântara


Coisa boa de se repartir:

"Música é vida interior. E quem tem vida interior jamais padecerá de solidão."

MULHER

Nasci preparada para sangrias mensais.
Será que isso explica todos os meus mortais?

Esther Alcântara
Na casa em que habito
coleciono pétalas desidratadas
devoro páginas imaculadas
e desenvolvo bons maus hábitos.
Nela me acostumei a vagar à noite
a sentir-me bem acompanhada
com meu próprio fantasma
tantas vezes que morri
de sufoco, mas não de asma
sem perder minha chave.

Foto e Poema: Esther Alcântara
Um dia me disseram
que era enxuta e resoluta
a palavra bem dita
mesmo que num poema
maldito.
Nada de advérbios
artigos pra definir
gerúndios pra estacionar
adjetivos... pra quê?
E não polua com pontuação!
Com o fôlego a definhar
travei os dedos, a garganta,
a inspiração...

Foram anos de asfixia
tolhendo-me por tolice.
Hoje que recobro o ar
e aspiro a emoção da razão
meu lirismo até goza
prolixo e ardente.

Esther Alcântara

Perder pode ser perfeito!
Perder a voz,
não a voz do ser amado, claro,
bom é se perder direito
no tapete, no tatame
quando já não tem mais jeito.
Ao pé da página
também se perde a si,
achando-se depois mais pleno,
sem nenhum perdão
da palavra
perdidamente dilacerante.
E com a concessão
também da palavra
é ótimo perder a compostura
e assumir uma postura
de encantado.
Aí é só perder de vez
o rumo
da prosa
e na poesia amorosa
deliciosamente
se aprumar.

Perder pode ser perfeito!


Esther Alcântara





A xícara está cheia.
Embora incompleta, transbordante.
Mas este chá de finíssimo aroma
está longe de ser minha última ceia.


Esther Alcântara

DE VERDADE

Um dia ainda consigo

dar-te leveza de pena
que não seja pena de mim
nem quando estou distraída,
que seja meu vôo poesia
sem cotovelo em flecha
que num desenho cubista
o coração atravessa
num atentado terrorista
à minha paz
e à nossa amizade.

Esther Alcântara
Revelou-se a primavera
e respirei amor-perfeito,
suspirei do teu efeito
sobre minha atmosfera.
Mas tua órbita mudou
minha lógica expirou...
Verão, sem dor te dou
poesia em mutilação.

Esther Alcântara
(foto e texto)
Prossigo aturdida,
cabelo crescendo
e nenhuma brisa
nem tua mão amiga
a trazer-me alento
enquanto eu roço
o teu acalanto.
Mas gosto quando
em mel te besunto
de amor brincando:
a minha palavra
você alisa.

Esther Alcântara
BEIJO DE CANTOR

Teu canto adocicado
é o que me faz companhia
na solidão do meu dia,
traz-me um calor delicado
um prazer descomplicado
luxúria ou sabedoria.
Tento achar um jeito
de absorver tuas horas
sorver-te em osmose sonora,
fabricar uma obra de arte
inventar um encantamento
pra tocar teu sentimento.
E na nudez da minha nuca
enquanto finjo estarmos sós
recebo o beijo da tua voz.

Esther Alcântara


QUERENÇA

És o sol
de meu planeta mais secreto
és o sal
em meu prato predileto
e a linha
no tecido da minha pele.
ECOS

Na vertigem diária
pesa
o desejo
de todo esquecimento

enquanto os lábios
guardam silêncio
corrompido por ecos
itinerantes.
Distrações da memória
de tudo em nada.

Esther Alcântara




...E FIM...

Tatuou em minha carne

história rara, silêncios
de mil e uma noites.

Rabisquei em sua pele
com caneta, noites
de nenhuma história.

E o epitáfio concreto
deste meu folhetim
cheira a flores vivas:
Aqui jasmim!

Esther Alcântara


("Aqui Jasmim" é um epitáfio que escrevi para minha amiga
Roselaine Cruz e que agora registro neste poema.)

CONSAGRAÇÃO

Antes que se feche a porta do elevador

retenho a ternura tensa do teu olhar,
pego pela mão a minha-tua dor
e nem me atrevo a chorar, naufragar...
É necessário flagrar esperanças.

Antes que se feche a porta do elevador
não perca a ternura densa do meu olhar,
pega pela mão o meu-teu amor
e nem se atreva a soltar, me sangrar...
É necessário consagrar o amor.

Esther Alcântara

CORAÇÃO EMBALADO

Balbucio

burburinho
balbúrdia!

Coração embalado,
Se não posso te servir
por que me obrigas
a te ouvir?

Esther Alcântara


CANTORIA

Bem-te-vi

quando bem te queria
beija-flor.

Ai de mim
se o bem-te-vi
não me cantar.

Esther Alcântara

CICATRIZES

Tem cicatriz que só dói
em dias de guarda-chuva
e outras que desaparecem
da noite pra melodia.

Tem cicatriz que transborda
pelos olhos, pelo rosto
tão líquida e tão concreta
dolorida marca d'água.

Tem cicatriz que é bonita
traz da queda só o vôo

d'um amor que não se explica
da loucura a melhor dose.

Esther Alcântara

VIAGEM
Olhos nas estradas

pés nas estrelas
abraços em brasa
e o coração, louco
em carne-viva.
Nesta bagagem
só cabe a viagem.

Poema e foto: Esther Alcântara
A FRESTA DA FESTA

Já é manhã.
Despertar sem dormir
mareada de miragens
é candeia na alma.
Corpos de luz, labaredas
tatearam a madrugada
num vir a ser só ser.
Logo,
o amanhecer
espiou em festa
por todas as frestas
e fez a noite dormir.

Esther Alcântara

TERRA NATAL

Chão de terra
chuva tenra
bafo de barro...
Leve meu barco
enxurrada
até ontem.

Esther Alcântara


Na foto:
eu, Élen (minha irmã),
Roseli, Ana Paula e Meire,
em Monte Aprazível (SP),
na década de 70.
Estamos todas velhinhas... rs.

Se tão bem me queres
acorda meu alarido
desabotoa meu sorriso,
deixa que eu faça sentido
solta entre meus sentidos.

Se tão bem me queres
traça um barco colorido
entre os vincos do meu rosto,
não deixe que só me reste
o convexo arco da dor.


Foto e poema: Esther Alcântara
(na foto, riso solto de Márcia Moraes)

RETORNOS

Sempre a mesma
frase feita

a mesma melodia
de sininhos
e eu a fingir
paisagens inusitadas.

Esther Alcântara

Se...

Se não fôssemos
qualquer coisa mais
que um mero caso
ou truque do acaso
já estaríamos
a ver o ocaso.

Esther Alcântara

ENCONTRO

Da tua poesia
a roçar na minha pele
eu, plena, emudeço
da mais pura palavra.
E num quase rito
colho teu abraço,
misto de calor humano
e doce mito.
Nele ouso pressentir
um dia te acolher,
mito ou menino,
homem sem relógio
nem lógica de espera
pra brincar no quintal
da minha poesia.

Esther Alcântara
DESATINOS

Um não sei quê

de não sei bem onde
pede um seja o que for
pro meu coração
gritar de não se ouvir
até que seja cedo
pra se aconchegar
e tarde pra se distrair.
E nesse eixo
de doa a quem viver
eu me perco
como quem desatina
com simples aspirina.

Poema: Esther Alcântara
Foto: Eléia Alcântara
(Marujá, Ilha do Cardoso - SP)
Nada me dói mais
que a secura do não sentir.
Nada me apavora mais
que acordar na madrugada
com o pensamento
no breu do nada.
Quase me entrego
quase me acabo
quase sofro...
mas nunca
quase sinto.

Esther Alcântara
Havia um olho no meu cisco
tão grande
que via o risco do abismo
em tudo que cismo.
Nada disso, eu disse
o perigo
sempre foi meu amigo
e a coragem
bate bola comigo.

Esther Alcântara
(foto e poema)
Quando tudo vai
como se voltasse
a gente lembra
que esqueceu
de ir além.

Esther Alcântara
(foto e poema)

Se poesia quase
pó compacto
esta minha voz,
absoluta e linear
dissolução,
que se dirá
se transbordar
na linha
já lânguida
minha versão
liquefeita.

Esther Alcântara


Coragem, poeta!

Vista a palavra
pelo avesso
dispa a penugem
da alma
e aumente a dose
do perfume doce.
Depois
como quem divaga
num salto alto
desfile um verso.


Obra de Willian Gama

Foto e poema: Esther Alcântara