Cantarolar

O jeito é cantarolar
e se safar da dor
que rima desamor
no ruído do mundo
achar a boa voz
e a alma do som
em veios profundos
de veredas tortas
e no verso bom

O jeito é cantarolar
deixar fluir de cor
o tom de tom melhor
rever cada pegada
na trilha sincopada
da sonora vida 
e ainda ser capaz
na canção colhida
de encontrar a paz

Esther Alcântara
5 ago. 2014





LAÇO 

Meus lábios 
Andam no encalço 
do verso do verbo 
avesso a soluços 
nu de percalço
e soslaio
fluente em flor
enlace sem siso
todo sorriso
em conciso laço
de abraço.

(Esther Alcântara)


Atlas 

Quase te piso

e meus olhos 
que dia a dia
ensaiam cegueira
já não ousam
nem no íntimo
simular indiferença
a teu repouso
de atlas cansado
do mundo da calçada
teus olhos baços
teu nu autoabraço
nenhuma crença
ou fé de criança
sem passado
quem dera força 
pra predizer
- até amanhã!


Esther Alcântara

1 ago. 2014

Era a vida
Num perder de vista
Sob a lua suspensa
Sobre luz de alpendres
em noites simples
Com perfume de murta

E vieram varandas
Plenas de suspense
E delírio
Sobre o silêncio
Que vaga no vento
Aos gritos

De sobremesa
Terá de vir quintal
Com brotos de surpresa
A expandir o peito
E distrair cansaços
No parapeito

(Esther Alcântara)

1 julho 2014

É cedo 
e é sábado
mas já tem fadiga
pó e correria
e já tem corrente
no encalço dos pés
e gente conformada
com a vida em viés
no ônibus compressa

Engulo comprimido
sem dó nem água
pra dor de dente
pra não ter mágoa
pra pegar no tranco
cheia de trincos
e me fazer contente
com qualquer asa
que se faz urgente

(Esther Alcântara)

21 junho 2014

FÔLEGO

Resgato-me
do musgo impregnado
no muro mais puído
pelo murro
pela marra
em novo fluir
de fôlego
novo regalo
novo regato

Esther Alcântara
15/05/2014



Espalhe poesia
todo santo dia
até que todo santo
seja o seu dia
e todo o seu dia
Espelhe poesia

Esther Alcântara
12/05/2014


ALENTO

para o poema
tem me faltado
tempo 
de invento 

de alento
campo
tem me sobrado
para a poesia


Esther Alcântara (poema e foto)
11/05/2014

FORÇA

FORÇA

O que fomenta
meu movimento
e a vida fermenta
é a poeira da trilha
o quarto minguante
de luz e mobília
a certeza do avanço
mesmo que oscilante
entre solavancos
e nenhuma chance
de escolher ser
café com leite
e encolher.

Esther Alcântara




VESTÍGIOS

A estrada que marca 
nossa estada
neste mundo de meu Deus
tem pegadas profundas
ecos de muito adeus.

Como são agudos
os vestígios do amor!

Esther Alcântara

ASSOMBRO


Assombro-me
com minha sombra
que tanto me aprisiona
quanto me liberta
da lucidez
essa insana que
me acorrenta
em acidez
e doce unguento.

Esther Alcântara

28/01/2014



DENGO

DENGO

Tudo tem tempo
determinado
tem hora
de terminar

Tudo vem
Tudo vinga
Tudo vai

Faz dengo
rebola e ginga
esse tal de amor
mas também se esvai.

Esther Alcântara


CASTELOS

Construí muitos castelos
todos de areia 
e desabaram, claro
como se os rastelos
amassem roçar sereias.

Mas foram castelos
porque não aceito pouca areia
e só prometo aos meus cabelos
jamais perder a receita
de tudo o que me despenteia.


Esther Alcântara

CLARABOIA

CLARABOIA

Surpresa de luz
suspensa 
no breu da rotina
desdenha
da penumbra
enquanto o sonho
desenha 
e a fé descortina 

Esther Alcântara
18/01/2014



Eu disse nunca
e ergui a nuca
pela manhã

Eu disse talvez
mas perdi a vez
certa tarde

Eu disse sempre
que o vento sopre
no meio da noite

Esther Alcântara
16/01/2014




Deixei cair
um poema líquido
de voz silente
e alguma quentura
adolescente
na página do dia.

Amor dormente
se derrama assim
no salto alto
da palavra aguda
como que mergulha
sem nota de fim.



É noite
sob minhas pálpebras
e nada em mim
apalpa a luz.

É noite
e não há estrelas
nem tristezas
que me façam jus.

Esther Alcântara
14/01/2014

FELIZ ANO NOVO!


Num acalanto
coloquemos pra dormir
com doçura de alma
nosso ano que se despede
e despidos de amargura
recebamos o presente
de 365 páginas em branco
pra poetar a vida!


Feliz Ano Novo!



(Esther Alcântara - 31/12/2013)




Só mais um compasso

Eu sei
parece um abuso
meu olhar oblíquo
minha pausa pesada
pós palavra obtusa


Se não for mais abuso
peço mais um compasso
regado de pausa
só mais um espaço
prenhe de poesia


Esther Alcântara

13/12/2013




SEM PORTAS

Hoje eu acordei
daquele jeito, assim
com a poesia pousada
ao longo de mim
em líquido lirismo
a liquidar vestígios
de emoções estanques.

Hoje eu acordei
com todas as comportas
descomportadas
os nós da garganta
desatados
e as flores da pele
desabrochadas.

Esther Alcântara
16 nov. 2013

 

 
 

RELENTO

Vou vivendo
de janelas acesas
e luzes abertas

porque não há mau tempo
que apague a luz
de quem ama ao relento.

Esther Alcântara
18/10/2013



ENTRELINHAS

Faz-se necessário
que coloquemos mais ternura
no crivo do nosso olhar 
ao cavocar entrelinhas 
para que nossa leitura não reflita 
apenas a criatividade 
da nossa amargura.

Esther Alcântara

Desafio:
você guarda a faca
enquanto eu afio
a outra face
na lâmina que afaga.

(Esther Alcântara)



E foi quando o seu abraço
acordou o meu cansaço
que descobri a beleza 
de transpirar pelos seus poros
enquanto você inaugurava
a minha delicadeza.

(Esther Alcântara - 16/6/13)




Faíscas de sonho
no olhar sensível
a espera de um lume
que sangre o céu
com esporas de fogo

Quem cavalga a pelo
na trilha da poesia
domina o caos
quando pega carona
no prisma do ocaso

(Esther Alcântara/10 jun. 2013)

(Foto: Regina Pereira)

SOL EM MIM

SOL EM MIM

Meu coração andante 
só se alegrou em sol
quando caiu em si 

(Esther Alcântara)




Noite

NOITE

A noite não cai
 apenas se deita 
em nossa face lunar
e se ajeita
como quem se recolhe

Sombreia nosso lume
até que o dia se ajoelhe
e se desdobre 
em ouro e cobre
sua vez de brincar.

(Esther Alcântara)

Letras de luz


LETRAS DE LUZ

Quero um papel
que seja todo azul
que seja todo céu

Nele vou desenhar
letras de luz
poesia de estrelar

Acho que posso
pelo menos pretender
que a vida seja mais
que um mero esboço.

(Esther Alcântara)

POIESIS


POIESIS


Dois meses
relação embrionária
em tese

em fato
respiração extraordinária
poiesis

Esther Alcântara
3 jan, 2012

Ponto final


Enquanto quando


ENQUANTO QUANDO

Esquanto dormia
eu beliscava teus sonhos
Enquanto dormia
você despertava meus sonhos

Dormindo você ouvia
eu sabia
acordes que eu nem intuía

Quando acordava
você cantava pra mim
Quando acordava
eu bailava em seu jardim

Esther Alcântara
1º jan. 13
Imagem: Gregory Coubert

Zigue-zague

Foto: Antônia...
"Vida feita de água, de cheiro de chuva, de terra molhada, de alegrias e encantamentos."


Bordado Matizes Dumont.

ZIGUE-ZAGUE

 Aprendi
no atelier da vida
a cerzir o amor
porto de partida
em ponto apertado
nas linhas do sorriso

Desviei do boicote
impedi o sobressalto
ousei no decote 
caprichei no salto
e rendei-me toda 
pra não me render

No arremate
cosi num só bordado
ocaso e madrugada
e o amor desenhado
em zigue-zague
foi porto de chegada


Poema: Esther Alcântara 
(18/12/12)

Foto: Matizes Dumont
(www.facebook.com/Matizes-Dumont)

Dedico este poema à minha mãe, em memória e saudade, e a Werner Viana, meu amor. 


VEIAS E VIGAS

Não julguem meus ais
se dor ou luxúria
luxo ou torpor

São sempre bons sinais!

Minha mente insana
abriga um coração caduco
e com ele briga

Corre água nos beirais!

Mas há vigas
solidez edificada
nas veias que me percorrem.


Esther Alcântara


TRIBUTO

Tenho usado rímel
na gestação
de lágrimas negras

Fala em mim feminino medo
da liquidez cristalina
da alegria

Esse é meu tributo
meio mascarado
ao verossímil


Esther Alcântara

Vós em Nós



VÓZ EM NÓS


Voz

que voa
Volúvel
Volátil
fugaz


Ás de ouro

flor do dia
cor da noite


Oi

em grito sem voz
canto sem caos
e  nós do bem na
voz


Esther Alcântara




Às amigas Simone Knoll e Anna Tréa

Sei lá



Veio sem pressa de partir
essa virtude de sorrir
essa vontade de acolher 
a vida como graça
colher a graça de viver

Sei lá se a gente escolhe
entra come bebe vive
sei lá o que sacia
sei lá onde é a casa do querer

Veio sem nem bater na porta
sem medo, sem pedir licença
causou a moinhos de vento
e entre redemoinhos
 ousou me tirar pra dançar

sei lá se você sabe
onde como tudo quando
sei lá se eu sei
sei lá se isso é da conta do saber

Esther Alcântara
09 jun. 2012