Sabores telúricos e dissabores alados... Vida, estou servida!
Borra de vinho na taça da noite... Vida, estou servida!
Borra de café na xícara da manhã... Vida, estou servida!
Chiado do fogo na folia da memória... Vida, estou servida! Grito das águas no deserto da estrada... Vida, estou servida
Coisas do ser e da vida que recebo, que entrego... Vida, estou servida.
Esther Alcântara
Sinto muito
Sinto muito
por sentir muito
e não conhecer métrica
pra conduzir minha prosa,
doida costura reta.
Meu ziguezaguear
deixo para os versos
onde meu inverno se abriga
e digo o que não sei dizer
mas de melhor sei sentir.
Sinto muito
por ser incapaz
de bordar estrelinhas
em entrelinhas reforçadas
por retoques de retórica.
Meus bordados
adoro dar de presente
a quem não quer embalagem
rótulo sem conteúdo
ou maquiagem.
Esther Alcântara
Lusco-fusco
(reservado para ser musicado por Cardo Peixoto)
Tudo chega a mim
e tudo de mim se vai
sem toque de clarim.
Tudo em fosca luz
no vai-e-vem do dia
sem bala de alcaçuz.
Tudo chega a mim
com horário de partida
sem combinar com fim.
Tudo bem sem lar
sem o amor ser guarida
nem o rio dar no mar.
Eu que me aguente
na sede de sol a pino
eu que me contente
com pôr de sol no destino
e faça a estrela dalva
dançar em céu cristalino.
Esther Alcântara 26/05/2009
Oração De Cor
Que me venha o lirismo das idéias com cor, das memórias e alegrias de cor.
Que seja densa a nuvem e que raie a chuva com força intensa só lúmen.
Que febris gravidades cubram a brisa morna da temperança dos dias sem amor.
Esther Alcântara 18/05/2009
Deserto
Em meu deserto crio oásis azuis lagos de lágrimas em asas de luz a lumiar delírios de que me rio de que me banho... Será deserto se cheiro a lírios?
Esther Alcântara 17/05/2009
APELO
De mosaicos revesti minha pele com cores vivas coração e coragem. Não me peça filmes em preto-e-branco nem me dê placebo açúcar ou coca-cola. Sou mais uísque sem gelo nem apelo ou vinho seco na língua molhada. Dê-me dose dupla ou nada.
"Escrever um conto, poema, definição... o que quiser, desde que inclua as palavras vida, amor, literatura, sexo, viagem, cinema.
Depois fica mais simples: "Passar para 6 blogs de mulheres. Mostrar o link de todas e avisar para cada uma em seu blog." Hummm... certamente mais de seis merecem o prêmio!
Bem, vamos à parte mais difícil:
PRÊMIO
Ela piscou duro e abriu os olhos forte e rapidamente, como alguém que arma um guarda-chuva às pressas, já sob a chuva. Manteve-os bem abertos para certificar-se de que não era sonho, viagem astral... Também verificou se não estava no cinema nem incorporando algum personagem da literatura romântica. Eles às vezes possuem as pessoas que têm necessidade de adocicar a realidade. Beliscou-se e, pasma, deu-se conta de que era vida real e era com ela mesma que acontecia. Ela que não acreditava mais em contos de fadas, ela que não chorava com beijo de novela, ela que não gostava de comédias românticas, ela que nem esperava mais o amor... Estava sob a chuva e haveria de se molhar! Era o que lhe revelava aquele olhar doce e tempestuoso, que não permitia a fuga de seus olhos de coruja assustada. Descrente, fez alarde ao coração, armou todos os guarda-chuvas mentais que conseguiu e passou a remendá-los a cada respingo que a atingia na presença daqueles olhos. Foram meses de remendos inúteis, pois seus sentidos se deliciavam com os respingos e pediam cada vez mais, mais, mais... Até que o sexo acordou, lentamente, a partir da exuberância do amor. Com a mais íntegra e mútua entrega, ela foi deixando para trás todos os medos que se escondiam sob farrapos. E foi assim que, vencida, ela venceu. Aprendeu que os verdadeiros encontros tem o poder do inevitável e o vigor do inabalável. Representam a rara experiência do amor, prêmio mais sublime da existência.
Entrementes traço retas no redondo vôo marimbondo beijo beija-flor.
Entrementes tremo veias estremeço veios pelo avesso afogo no fogo.
Entrementes trinco rompo meu allegro quase desintegro sísmica me cismo.
Entrementes troco verbo pelo verso sobre o submerso mel amor emerge.
Entrementes truco foco a estrela rara visto a vista clara vértice horizonto. -------------- Esther Alcântara 02/03/2009
Carnaval sem fantasia
Saudade antes da ausência medo antes do escuro solidão antes do abandono lágrima antes da tristeza cinza antes da quarta-feira.
Esther Alcântara
Idílio
Você, meu idílio em verso e vida. Paixão desmedida delírio meu, você.
Esther Alcântara 13/02/2009
TEMPO DE GERMINAÇÃO
Nas linhas te sonho nas entrelinhas te exponho e fixo teu olhar menino como se o emoldurasse, quadro vivo que me olha e mesmo que não me veja adocica o meu olhar, cultiva meu melhor. E enquanto te sonho percorro mais leve na linha e na lida este longo talvez.
Poema:Esther Alcântara Imagem:Gustave Klimt
24/10/2007
Tricô
Matizes e tramas ousam mantras visuais. Pouco a pouco ponto a ponto do tédio floresce transcendência.
Foto e poema: Esther Alcântara Flor da Chapada Diamantina (07/10/06)
NÃO IMPORTA
Não importa se é segundo ou se beija o infinito, importa que é profundo.
Não importa se é chuvisco ou se vira um dilúvio, importa que me arrisco.
Não importa se é suave ou se machuca a pele importa que é a chave.
Não importa se é dança ou segue em passo solto importa que é bonança.
Não importa se é loucura ou se é casa arrumada importa que me cura.
Esther Alcântara 18/01/2009
TUDO
Não me habituei a me abotoar, tua carícia me rasga a pele afoita do peito.
Nada em mim é metade nada se faz sorrateiro. Tudo em mim tem verdade tudo o que dou vai inteiro.
Não me acorrentei ao medo de amar, teu peito sem lascas é minha carícia maior.
Esther Alcântara 15/01/09
SONHO
Depois do sonho resta o gosto a candura o açúcar na boca no céu exposto a dissolver a derreter em chuva terna a embalar a acalentar na face à mostra o riso à tona a doçura de quem ama enquanto sonha.
Solo na rota do sol a solavancar nos pulos do pulso.
Só avanço pedra ante pé sopés e cimos afora.
Braço sem laço não me apavoro e nado no vento.
Adentro o intento: planta de brejo broto a contento.
.................... Esther Alcântara
11/09/08
Imagem: René Magritte
LEITURAS
Com a cabeça num movimento pendular, ele observava os livros em minha estante. Eu, atenta ao movimento, lia aquele homem como um badalo intermitente a buscar as paredes do sino, aquelas que acordariam toda a sua ressonância. Ele ansiava por frêmitos inauditos, pela palavra erudita ou pela dita cuja que lhe acendesse o pavio da inspiração. Talvez por um poema que alicerçasse seu edifício.
Então, cansado de buscar na estante, olhou-me nos olhos e me pediu que escrevesse um poema sobre essa sua sede ante os livros. Usou o tom de quem pedia um copo d'água ao lado da fonte, mas a malícia de quem sabia que eu suaria por todos os poros da fronte para encher o copo, gota a gota, e nunca lhe saciaria.
Foi quando espelhei seu movimento, embora de forma interior, com todos os meus badalos a balançar, à procura de palavras e sentimentos dissonantes para ao menos uma rima ressoante.
Atento ao movimento de minha íris, que me denunciava espelho, ele suavemente me disse que poderia esperar. Percebi, então, que me viu como um dos livros, mas com a diferença de saber-se diante de um livro aberto e sem poeira, ávido por ser folheado por seus dedos gentis, descortinado por sua mente hábil e compreendido por seu coração generoso.
Em pouco tempo, na densidade do meu olhar e na secura de minhas palavras, pôde sentir que essa leitura não seria linear nem fácil, embora lhe prometesse uma história intensa, rica em sentimentos raros e poesia. Isso descompassava as badaladas de seu coração, que oscilava entre o desejo de ler-me e o ímpeto de abandonar-me na estante entre os livros de leitura difícil.
Novamente me espelhei, sentindo-o como um livro e lendo as páginas que me apresentava. Não era um livro tão aberto, mas mostrava-me páginas suficientemente lindas para que eu pudesse ansiar pelo todo, fazendo-o meu livro de cabeceira. Percebi que era feito de um papel mais fino que o meu, em todos os sentidos: comportava palavras mais delicadas e era mais sensível aos descuidos de quem o folheasse.
Foi um dia de intensa leitura, e sei que é só o começo. Agora, desejo que sejamos capazes de ir bem além do primeiro capítulo ou da primeira descoberta, abrindo-nos a nos ler obra completa, mutuamente espelhando algo realmente importante: o movimento amoroso. É só por meio desse movimento que escreveremos nossa verdadeira obra-prima, a quatro mãos e com sólida inspiração.
Esther Alcântara
22/06/2008
Revés
Nódoa na língua ungüento de um revés.
Mágoa que míngua quase refeita reinvento-te em verso.
..................... Esther Alcântara 01/11/08
NOSSO IPÊ AMARELO
Ele olhava nossa casa de cima, presenteando-nos uma vez por ano com milhares de florescências ensolaradas. Era nossa bandeira de alegria, nosso selo com a vida, apesar dos sapos que ela fazia pular em nossa garganta e não desciam macios. Especialmente para minha mãe, que claramente refletia nessa árvore seu desejo de mais vida, para ela e para seus queridos que estavam indo embora. Naquela época, pensávamos que ela jamais permitiria que o ipê fosse cortado, mesmo que houvesse um motivo justo. Era um de seus tesouros, além das tantas orquídeas.Durante suas floradas, o vento tossia e levava muitas flores para o chão. Nunca gostei de varrê-las, pois teciam um tapete de um amarelo luminoso e alegre, que muito mais enfeitava do que sujava nossa casa quase de vidro.Na mesma época em que a casa começou a esvaziar, nosso ipê deixou de florir, como se estivesse triste e cansado. Então minha mãe permitiu seu corte, já cansada lutar por vidas. No pequeno tronco que restou, ela logo pendurou suas lindas orquídeas, com seu dedo verde machucado e seu desejo quase poético de perpetuar sua florescência.No prazo de um ano, perdemos dois familiares. Pouco depois disso, vieram dois novos sobrinhos: um casal de gêmeos que nos trouxe a certeza de que a casa nunca ficaria vazia e sem vida.Foi quando o nosso ipê amarelo reagiu e, pequenino como os gêmeos, começou a brotar novamente, enchendo-se seu toco sobrevivente de folhas novas. Ele parecia decidido a assumir o espírito de fênix de nossa família e renascia, obstinado.Mas ainda não bastava. Minha irmã, que por muito tempo cuidou dos que se iam, encontrou uma vida em plena florescência - o Pedrinho, uma criança grata pela vida e que encheu de graça a vida de todos nós.Nunca mais tivemos novas floradas. Talvez nosso ipê tenha percebido que já não precisávamos delas, pois nossas crianças têm o sorriso ensolarado de suas flores e nos ajudam a compreender e aceitar o ciclo da vida.
Esther Alcântara 20/02/2008
Curiosidades:
Ipê-amarelo é o nome popular de algumas espécies de árvores da região Sul e Sudeste do Brasil, pertencentes à família botânica Bignoniaceae, gênero Tabebuia.O nome científico Tabebuia, de origem tupi-guarani, significa pau ou madeira que flutua. É denominada, pelos índios, de caxeta, árvore que nasce na zona litorânea do Brasil, cuja madeira íntegra (inatacável) resiste ao apodrecimento.
Visão holística:
"O ipê perde todas as suas folhas, para melhor recolher e concentrar todas as suas forças, pois é a partir da árvore esgalhada e nua que se transforma num exuberante florescer, que serve de aviso e esperança de que as chuvas de bênçãos estão por retornar (...) São mensageiros do céu, do Sol e das chuvas, que avisam pontualmente que a Alma Universal já descansou o suficiente e se sente preparada para um novo ciclo de experiências externas. São, pois, clarins luminosos que indicam o fim de uma etapa e o recomeço de outra."
(Do livro As Essências Florais de Minas: síntese para uma medicina de almas, de Breno M. Silva e Ednamara V. Marques).
Em Macunaíma, de Mário de Andrade, ainda encontramos:
"Os ipês de beira-rio relampeavam de amarelo e todas as flores caíram nos ombros do moço Titçatê guerreiro de meu pai."
EM TUDO DAI GRAÇAS!
POESIA
Pólen que no outono rosa convida a vôos curvilíneos
Flor que só de teimosa enfeita os vasos sanguíneos Proeza que por nada prosa derrete em dedos longilíneos
................... Esther Alcântara 30/05/2008
SOBRE BESOUROS E AMANTES
E um raro besouro dourado batia à janela insistentemente. Com essa frase Neto concluiu, em tom misterioso, seu relato sobre uma famosa vivência de Jung: uma paciente lhe conta que sonhou com um escaravelho dourado. “Símbolo de renascimento, para os antigos egípcios”, pensa ele. E um barulho na janela interrompe o vôo de seus pensamentos. Ele se volta e vê, perplexo, um raro besouro dourado batendo no vidro, insistindo por uma chance de entrar.
O que entrou, e para a história, foi um exemplo perfeito de sincronicidade.
Rosa ouve Neto e se vê com besouros atrás da orelha. Espreita discretamente a janela, acalenta zunidos...
Ela havia contado a ele algumas experiências suas desse gênero, por isso ele lhe falou de Jung. Ficou feliz por fazerem sentido para alguém e — melhor ainda — por poder ouvi-lo, com seu jeito bom de aprofundar-se com simplicidade, adentrando seus mistérios e ousando brincar com ela de desvendar os da humanidade.
O filme que veriam naquela noite foi que motivou o assunto: Os amantes do Círculo Polar. Nele não faltavam idéias circulares e sincronicidades. Corpos colados, lamentaram seus nomes não serem palíndromos, como os dos amantes do filme, mas... Tantas eram as outras coisas em comum! Colecionavam palavras perdidas no tempo, plenas de aconchego e poesia, e recolhiam-se nelas até que se calassem os besouros da mente. Amantes? Talvez. Giravam, giravam... E acabavam juntos, compartilhando a coleção, o silêncio e a nudez da próxima cena.
No dia seguinte, Rosa entrou na Livraria Cultura apenas à procura de outro filme que lhe havia sido recomendado.
Mesmo tendo alguma pressa, não resistiu e embrenhou-se pelas estantes de livros, tentando convencer-se de que seria só de passagem.
Pegou um livro de título desconhecido, gosta de surpresas.
Ao abrir aleatoriamente o livro, uma surpresa de eriçar os pêlos: deparou com a mesma história do besouro de Jung ouvida na noite anterior.
Desta vez teve medo de levar os olhos à janela.
Conto: Esther Alcântara - out./2008 Foto: João Sargo - Imagens Google (recorte)
Ps.: Este conto está concorrendo no concurso Contos da Cultura, que tem como um dos regulamentos a citação da Livraria Cultura.
ASSOPRO
Assopro-te dor graúda de lembrança em letargia Assopro-te canto do peito que em mim não cabem mais agudos.
Assopro-te planta miúda dos jardins da inocência Assopro-te vestígio de pele que em vão me vestem tais fragrâncias. ............ Esther AlcântaraFoto: Ricardo Zacho
Ele Reinventava o céu a seqüência dos dias e os ciclos lunares. Ria por ver tolice em sentimentos rotos de folhetins e bares.
Ela Reaquecia o sol ou sótãos imaginários num entra-e-sai de si. Relia receitas e romances fazendo-se de refeita indiferente aos umbrais.
Esther Alcântara
CORDAS
No cinza da tarde cordas pintam o mundo acordam nuanças musicais
Música amiga música que abriga música que sabe colorir
No cinza da tarde cordas em meu peito acalmam-se entre acordes
.................. Esther Alcântara
(A Camilo Carrara, pelo seu sublime dedilhado, que dá cor a esta minha tarde cinza)
Dores da pena
Se eu pudesse parir Rocamadour aliviaria minha pena.
Viveria aflições de parto sem implorar o perdão da palavra.
acocorada de dor e prazer empoleiraria-me nela com latinidade e lascívia.
Esther Alcântara
Nota: Rocamadour refere-se a um personagem do livro O Jogo de Amarelinha, de Julio Cortázar.
A retina amorosa prossegue estrábica e manhosa. Nu mistério em seu marejar de áridas ausências e alguma abstração a embainhar a rotina preguiçosa. Esther Alcântara
AH, CIDADE!
Um pulso histérico de concreto e fuligem intumesce a lágrima que inunda a cidade. Em todas as manhãs há vestígios da noite, nas noites alvorece invisível amálgama de solidez, solidão e alguma paz.
Poema e foto: Esther Alcântara
SÓ SENDO
A palavra é solidão o gesto é solitário o olhar, só soslaio.
Mas tudo é tanto que meio tonta já nem me caibo.
Esther Alcântara
VÔO 2008
Nas nuvens a página em branco do novo ano.
No azul a paisagem escriba de novos planos
Esther Alcântara
MAIS UM DEZEMBRO
Dezembro, cheguei aqui de repente sem ver o curso do tempo tanta a neblina na mente. Dezembro, lembro de ter feito planos elaborado mapas, meios algo fora do prumo. Dezembro, sem ter nas mãos o leme vale-me algum gingado e o vento me leva, leve.
Foto e poema: Esther Alcântara
ENTRAVE
Na tela branca que se quer página a palavra que trava a bola na trave o entrave... Cava o poeta um gol de letra?
Esther Alcântara
Quando pingo é i
Chuva na janela eu aqui e você noutra atmosfera.
Esther Alcântara
Nada além, nada além de uma ilusão...
Alguém me disse que os olhos são a janela da alma. E quando aquela alma debruçou na janela, eu era o parapeito pronto a receber seu peso e consistência. Nada mais me importou, nenhuma palavra boa ou duvidosa poderia dizer algo mais importante do que o descortinado por aquele olhar. Acostumei-me a passear todos os dias sob essa janela e a oferecer-me para novamente apoiar sua densidade, agora minha mais grata descoberta. Mas como lhe falta tempo para esse doce debruçar na janela, brinco de ilusão: espio pelas frestas da morada em uma imagem que traz o seu mirar e aprecio furtivamente seu interior. Finjo por instantes que essa morada se descortina pra mim, que se abre espontaneamente, que é possível que sua sensibilidade alcance o meu olhar debruçado em minha janela a lhe espiar de longe, que nosso entorno é só entorno, que minha alma também alcança seu peito, um parapeito quente e ávido de sentir. Quando me refaço, há apenas uma foto em uma tela de computador. Meu peito dói e em meus olhos o que debruça é uma alma dolorida e líquida, sem parapeito perfeito e ardente para não deixá-la assim, a escorrer. Já sem alento, mudo o foco, miro o horizonte e assobio uma antiga canção: Nada além, nada além de uma ilusão...
Texto: Esther Alcântara Imagem: Moça à Janela (Salvador Dalí)
CAFÉ COM FRUTAS Tangerina, goiaba, pitanga, jabuticaba, manga, carambola, cajamanga... Caramba, cajamanga!!! Cheguei a sentir o gosto, o cheiro, a memória na ponta língua a aguçar meu adormecido paladar de criança crescida. Estávamos em um charmoso café, no centro de uma metrópole, e a grande surpresa era o assunto da mesa ao lado, remetendo-me para tão longe dali e para paisagens tão verdes. Gosto da vida urbana, gosto desta cidade... Mas as viagens do imaginário quando menos esperamos são as melhores, principalmente quando conseguimos vivenciá-las com o corpo todo e com todos os sentidos. Minha amiga havia ido ao banheiro enquanto aguardávamos o café. Sua companhia era agradável, mas talvez se eu não tivesse um momentinho a sós comigo mesma não abriria os ouvidos para aquela melodia de pomar. Pensei na infância, mas pensei também no presente e nos dias por vir. Pensei nas frutas que como e nas que não como. Pensei no meu bonsai de pitanga que nunca foi pra frente. Restaurei a velha casa com quintal que sempre habitou meus sonhos e cheguei a sentir o cheiro de flor de laranjeira no hálito das manhãs dos meus novos dias. Em segundos, uma deliciosa viagem pelo tempo e pelos tantos cantos da terra que eu bem sei que ainda posso semear. Quando o café foi servido e a minha amiga retornou à mesa, o café já era mais especial e a amiga mais querida, pois meus olhos de viajante solitária haviam se lembrado que a paleta e o pincel estavam em minhas mãos, para dar a tudo o colorido que bem quisesse.
Esther Alcântara
TECIDO DE PALAVRAS
No embaraço dos fios da trama da navalha insana de quem sangra e ama o fluir de algum rio ora lânguido ora loquaz ora ao mesmo tempo tudo a desaguar em poesia.
Esther Alcântara
Não sou lá grande artista, amor mas trago a arte à vista e este jeito escancarado de embalar com poesia. Não sou estrategista, amor mas tenho arte e manha pra não querer ser nada que não seja tudo de mim.
Esther Alcântara
QUINQUILHARIAS
Gavetas cheias de reforços declaram tendência a declive carência de en-cantos livres. Em todo nada santo dia dormem e acordam em fila pendências hereditárias. Pergunto onde me cabe e até onde cabe a mim sem que eu me acabe.
Esther Alcântara
PALAVRA
Pelos poros da palavra transpiro lágrimas e alegrias desopilo porões e me abasteço de alma.
Só pela palavra alguma liquidez certeira antes do legado pó.
Esther Alcântara
ESPERANÇA
Quase esquecia a ordem dos dias o caminho da porta e o pó na soleira. Conversava com traças, damas de histórias raras em páginas rotas. A esperança já usava ray-ban e nada do filho de cuca legal. Foi quando um quase amor chamou na sala de espera: moça, agora é sua vez!
Esther Alcântara
CICLOS
Eu fecho ciclos como se os abrisse, num alarido ardente que precede ausência, mas fecho.
Eu fecho ciclos com música, poesia e alguma valentia, com nó e dó de peito mas fecho.
Esther Alcântara
Sobre estas madrugadas, quando fizer sentido me avise quando fizer sentimento me beije sob outras madrugadas. Só não espere meu coração congelar a alvorada.
Esther Alcântara
NOITE DE FREVO
Teatro cheio e a orquestra lança um frevo assanhado. Vagner Tiso se empolga no piano, enquanto eu, no balcão superior, tenho sanhas de um bom salto. Penso na morte ao ritmo do frevo, com regência... Minha barriga reage com calafrios ao imaginar o vazio do salto ou o salto no vazio. O verdadeiro climax? Talvez seja quando a vida está por um acorde e a morte é quase um golpe de sorte! Porque se a morte não vem antes que a música se acabe, é preciso prosseguir, à mercê da falta de magia. Soam os clarins e percebo que minha morte se atrasou, perdeu o momento da anunciação. Bem, talvez ela não tenha sensibilidade artística, pois vir me buscar justamente durante um frevo? Quer mais vida que no frevo? Morte confusa, vida difusa... Grudada na cadeira, algo em mim levita. Minha vida se alimenta do frevo, embora eu nem me favoreça da alegria.
Esther Alcântara
INSENSATEZ
Conheço-te e reconheço-te resposta antes da pergunta, música antes do som, saudade antes da vivência.
Onde andarão meus pés?
Esther Alcântara
BOM DIA
Vou dormir com a graça do bom dia embora você me diga boa noite. Um minuto de silêncio às horas que ora quase gritam no meu sorriso.
Esther Alcântara
TEMPO DE SABEDORIA
Na pirueta
dos seus dias azuis do chão pendiam folhas secas enquanto nos galhos pousavam as verdes. Seus olhos passeavam no céu de nuvens ainda de algodão enquanto se desfaziam nuvens de algodão-doce no céu de sua boca. Abalava as fadas mandando ir as favas todos os pesadelos.
Esther Alcântara
ESTE MEU CORAÇÃO
Um dia há de ser objeto este meu coração sujeito, um dia há de colher direito mesmo que escolha canhoto.
Será mar de sujeito afluente não mais quimera, represa com barcos de sonhos e barragens de concreto. Esther Alcântara
RAINHA DA FESTA
Se teu corpo mirassem meus olhos de louva-deusa, consumiria teus olhos com paladar de sobremesa. Mas este olhar abelhudo é de rainha da festa e não aceita fraqueza nem beleza com arestas. Esther Alcântara
OUTONO
Ah! Esta brisa fria... Alguns vacilos e as folhas caindo da vida dos livros que ainda nem escrevi
Esther Alcântara
INSÔNIA O silêncio do quarto convida minha quietude pra conversar. INSIGHT no silêncio do quarto minha inquietude resolve me acordar.
Esther Alcântara
TEMPO Reter o tempo ou abstrair-se dele por completo. Só assim esse bolero jazz só assim rock´n roll eternamente.
E um dia a gente vê que já nem ouve, mas houve? É só o que importa. Esther Alcântara
VIOLETAS VIOLETAS
Sobre a mesa violetas em botão
violam minha palidez feito holofotes de olhar violeta. Alguma cor alguma umidade na noite árida.
Esther Alcântara
Não coma de mim apenas a carne não me consuma tão pouco. Tampouco me alimente da fumaça efêmera do teu prazer que me traga e me evapora. Traga-me ao menos um elemento capaz de alcançar o cerne do meu prazer e saciar-me a fome de não mais ter fome. Esther Alcântara
NADA
Cacto seco e urtigas no jardim formigas na boca viva veneno acridoce no olhar.
Nenhum lugar é lá nenhum tempo é agora ninguém é a pessoa.
E todas as cantigas só lembram, nada é presente nada se pressente
noir.
Texto e foto: Esther Alcântara
ESPELHO Recebo e reflito o ritmo do teu pulso o medo do teu medo o desejo do teu desejo o brilho da tua estrela o latejar da tua dor. Esther Alcântara
Coisa boa de se repartir:
"Música é vida interior. E quem tem vida interior jamais padecerá de solidão."
MULHER
Nasci preparada para sangrias mensais. Será que isso explica todos os meus mortais?
Esther Alcântara
Na casa em que habito
coleciono pétalas desidratadas
devoro páginas imaculadas e desenvolvo bons maus hábitos. Nela me acostumei a vagar à noite a sentir-me bem acompanhada com meu próprio fantasma tantas vezes que morri de sufoco, mas não de asma sem perder minha chave.
Foto e Poema: Esther Alcântara
Um dia me disseram que era enxuta e resoluta a palavra bem dita mesmo que num poema maldito. Nada de advérbios artigos pra definir gerúndios pra estacionar adjetivos... pra quê? E não polua com pontuação! Com o fôlego a definhar travei os dedos, a garganta, a inspiração... Foram anos de asfixia tolhendo-me por tolice. Hoje que recobro o ar e aspiro a emoção da razão meu lirismo até goza prolixo e ardente.
Esther Alcântara
Perder pode ser perfeito! Perder a voz, não a voz do ser amado, claro, bom é se perder direito no tapete, no tatame quando já não tem mais jeito. Ao pé da página também se perde a si, achando-se depois mais pleno, sem nenhum perdão da palavra perdidamente dilacerante. E com a concessão também da palavra é ótimo perder a compostura e assumir uma postura de encantado. Aí é só perder de vez o rumo da prosa e na poesia amorosa deliciosamente se aprumar. Perder pode ser perfeito!
Esther Alcântara
A xícara está cheia. Embora incompleta, transbordante. Mas este chá de finíssimo aroma está longe de ser minha última ceia.
Esther Alcântara
DE VERDADE
Um dia ainda consigo dar-te leveza de pena que não seja pena de mim nem quando estou distraída, que seja meu vôo poesia sem cotovelo em flecha que num desenho cubista o coração atravessa num atentado terrorista à minha paz e à nossa amizade.
Esther Alcântara
Revelou-se a primavera
e respirei amor-perfeito, suspirei do teu efeito sobre minha atmosfera. Mas tua órbita mudou minha lógica expirou... Verão, sem dor te dou poesia em mutilação.
Esther Alcântara (foto e texto)
Prossigo aturdida, cabelo crescendo e nenhuma brisa nem tua mão amiga a trazer-me alento enquanto eu roço o teu acalanto. Mas gosto quando em mel te besunto de amor brincando: a minha palavra você alisa.
Esther Alcântara
BEIJO DE CANTOR
Teu canto adocicado é o que me faz companhia na solidão do meu dia, traz-me um calor delicado um prazer descomplicado luxúria ou sabedoria. Tento achar um jeito de absorver tuas horas sorver-te em osmose sonora, fabricar uma obra de arte inventar um encantamento pra tocar teu sentimento. E na nudez da minha nuca enquanto finjo estarmos sós recebo o beijo da tua voz.
Esther Alcântara
QUERENÇA
És o sol de meu planeta mais secreto és o sal em meu prato predileto e a linha no tecido da minha pele.
ECOS
Na vertigem diária pesa o desejo de todo esquecimento enquanto os lábios guardam silêncio corrompido por ecos itinerantes. Distrações da memória de tudo em nada.
Esther Alcântara
...E FIM...
Tatuou em minha carne história rara, silêncios de mil e uma noites.
Rabisquei em sua pele com caneta, noites de nenhuma história.
E o epitáfio concreto deste meu folhetim cheira a flores vivas: Aqui jasmim!
Esther Alcântara
("Aqui Jasmim" é um epitáfio que escrevi para minha amiga Roselaine Cruz e que agora registro neste poema.)
CONSAGRAÇÃO
Antes que se feche a porta do elevador retenho a ternura tensa do teu olhar, pego pela mão a minha-tua dor e nem me atrevo a chorar, naufragar... É necessário flagrar esperanças.
Antes que se feche a porta do elevador não perca a ternura densa do meu olhar, pega pela mão o meu-teu amor e nem se atreva a soltar, me sangrar... É necessário consagrar o amor.
Esther Alcântara
CORAÇÃO EMBALADO
Balbucio burburinho balbúrdia!
Coração embalado, Se não posso te servir por que me obrigas a te ouvir?
Esther Alcântara
CANTORIA
Bem-te-vi quando bem te queria beija-flor.
Ai de mim se o bem-te-vi não me cantar.
Esther Alcântara
CICATRIZES Tem cicatriz que só dói em dias de guarda-chuva e outras que desaparecem da noite pra melodia.
Tem cicatriz que transborda pelos olhos, pelo rosto tão líquida e tão concreta dolorida marca d'água.
Tem cicatriz que é bonita traz da queda só o vôo d'um amor que não se explica da loucura a melhor dose.
Esther Alcântara
VIAGEM Olhos nas estradas pés nas estrelas abraços em brasa e o coração, louco em carne-viva. Nesta bagagem só cabe a viagem.
Poema e foto: Esther Alcântara
A FRESTA DA FESTA
Já é manhã.
Despertar sem dormir mareada de miragens é candeia na alma. Corpos de luz, labaredas tatearam a madrugada num vir a ser só ser. Logo, o amanhecer espiou em festa por todas as frestas e fez a noite dormir.
Esther Alcântara
TERRA NATAL
Chão de terra chuva tenra bafo de barro... Leve meu barco enxurrada até ontem.
Esther Alcântara
Na foto:
eu, Élen (minha irmã), Roseli, Ana Paula e Meire,
em Monte Aprazível (SP), na década de 70. Estamos todas velhinhas... rs.
Se tão bem me queres
acorda meu alarido desabotoa meu sorriso, deixa que eu faça sentido solta entre meus sentidos.
Se tão bem me queres
traça um barco colorido entre os vincos do meu rosto, não deixe que só me reste o convexo arco da dor.
Foto e poema: Esther Alcântara (na foto, riso solto de Márcia Moraes)
RETORNOS
Sempre a mesma frase feita a mesma melodia de sininhos e eu a fingir paisagens inusitadas. Esther Alcântara
Se...
Se não fôssemos qualquer coisa mais que um mero caso ou truque do acaso já estaríamos a ver o ocaso.
Esther Alcântara
ENCONTRO
Da tua poesia
a roçar na minha pele eu, plena, emudeço da mais pura palavra. E num quase rito colho teu abraço, misto de calor humano e doce mito. Nele ouso pressentir um dia te acolher, mito ou menino, homem sem relógio nem lógica de espera pra brincar no quintal da minha poesia.
Esther Alcântara
DESATINOS
Um não sei quê
de não sei bem onde
pede um seja o que for pro meu coração gritar de não se ouvir até que seja cedo pra se aconchegar e tarde pra se distrair. E nesse eixo de doa a quem viver eu me perco como quem desatina
com simples aspirina.
Poema: Esther Alcântara Foto: Eléia Alcântara (Marujá, Ilha do Cardoso - SP)
Nada me dói mais que a secura do não sentir. Nada me apavora mais que acordar na madrugada com o pensamento no breu do nada. Quase me entrego quase me acabo quase sofro... mas nunca quase sinto.
Esther Alcântara
Havia um olho no meu cisco
tão grande que via o risco do abismo em tudo que cismo. Nada disso, eu disse o perigo sempre foi meu amigo e a coragem
bate bola comigo.
Esther Alcântara
(foto e poema)
Quando tudo vai como se voltasse a gente lembra que esqueceu de ir além. Esther Alcântara
(foto e poema)
Se poesia quase pó compacto esta minha voz, absoluta e linear dissolução, que se dirá se transbordar na linha já lânguida minha versão liquefeita.
Esther Alcântara
Coragem, poeta!
Vista a palavra pelo avesso dispa a penugem da alma e aumente a dose do perfume doce. Depois como quem divaga num salto alto desfile um verso.
Autora:
Esther Oliveira Alcântara
(Outros autores, com créditos. Imagens Google.)
Esta obra é protegida por licença Creative Commons. Condições p/ cópia e divulgação:
- fins não comerciais;
- sem quaisquer modificações;
- menção da AUTORIA (créditos);
- LINK para postagem original.