GRANIZO

GRANIZO

Lágrimas
se manifestam
por ruas
entumecidas

Derreter
é parte do pacto
por algum
enternecer

Secar
pede mais impacto
por delicado
entalhe

Esther Alcântara

INSÔNIA?

Insônia?

Medo de
fechar os olhos
e ver

Sobrevive-se
no sono do
desver 

Esther Alcântara

(Imagem Insônia, 
de Tiago Lacerda - Elcerdo)


DESVIO - via Bandeira

Eu choro
como quem faz versos
no vão 
entre as palavras
v(il)ãs
decapitadas
de senso e sonho

E sonho
em capítulos soltos
no desvio
das ruas
entre a literatura
e o meio fio
da página

Esther Alcântara

ENCDADERNAÇÃO

Se fosse possível outra encadernação 
eu me apresentaria como um livro em branco
 sem palavras nem ideias. 

Tem sido difícil viver 
entre minhas duas capas.

Esther Alcântara
SERÃO

Todos os meus
insetos
são ateus
e todas as minhas
larvas
são à toa

Mas todos e todas
serão pássaros
com fé no céu
ou borboletas
que se ocupam
de flores.

Esther Alcântara

FÓRCEPS

Boas lembranças
tatuadas no peito
também torturam

Cada clique mental
é uma faca afiada
ao revés do sonho

Não há partida
sem um parto
a fórceps

Esther Alcântara
QUANDO NÃO É ONDE
Não me acostumo 
com um tempo
onde

Vivo e escrevo
num tempo
quando...

Quem quiser
que ponha ponto
não parede

ENTRE ASPAS, VÍRGULAS E PERNAS
Ah, se você viesse
sem essa de
minha casa e
se casasse com
minhas asas e
meus vieses em
aspas duplas

Seriam menos
reticências
e excelentes
exclamações
entre nossas
interrogações
tão pertinentes
entre vírgulas e
pernas.

ESGRIMA

ESGRIMA

Não quero nada
que venha sem
fibra
nem estrada
sem margaridas
nos canteiros
e na lida
porque o que dá
tempero
e guarida
é a cara a tapa
de mulher
que não tem medo
de sol nem lua
e carrega a alma
nua
num corpo que rima
riqueza 
com amor
proeza
de fazer inveja
a qualquer craque
de esgrima

Esther Alcântara

AVESSO

AVESSO

Voam 
em alvoroço 
as aves que me
povoam

Esther Alcântara

Foto: Eléia Alcântara


NO AZUL DO VERDE

E me flagrou
num mergulho
no azul do verde
para além de
ver-me

porque raso
no fundo
seu oceano
a me azular
por engano

mas, bem sabia,
até com peixes
eu merecia
a poesia de um
flerte

Esther Alcântara


ÁGUA CORRENTE

Aguei o passado
na minha aquarela
sem lhe tirar
a cor e o viço

nem as nódoas
ou quimeras
eu borrei

Só pra não correr
o risco de ficar
só pra não incorrer
na dor, por vício

Perdão pincelei
com água benta
que lacrimei

Só pra não ficar
sem perspectiva
só pra não nublar
o plano, o por vir

O amor eu repintei
na água corrente
de um riacho

Esther Alcântara

(Imagem: Rio Atibaia, aquarela de Nelson Caramico, Flickr)
Porque hoje é sábado...

Coceira nos antelhos
Nem sempre é barata
Pode ser circulação
Desde os joelhos
Vontade de falar
Pelos cotovelos

Pode ser um bicho
geográfico
convidando pra viajar
não bicho carpinteiro
reumático
Po(u)sando no meu canteiro
de cactos

Hoje não sou lenhador
Meu codinome
É sonhador

Esther Alcântara
PORQUE UM GALO SOZINHO NÃO TECE A MANHÃ...

Desculpa
se eu não pude ficar
fora disso
se eu não pude sair
de dentro disso

Desculpa
mas não posso dormir
diante do lixo
pra não estacionar
atrás do lixo

Desculpa
se não posso calar
o meu suplício
diante do mundo
e seu suplício.

Esther Alcântara

ERA SUA NATUREZA

Tinha em si
um propósito

Ambientar-se
num universo
distraído
e povoar de olhos
tudo que respira

Mas não fazia 
de propósito

Esther Alcântara

(Foto: Eye of the moon - Arches National Park,
Utah by Lynn Sessions)

A todos os meus amigos artistas.

Imagens da semana301 03
EFEITO GIRASSOL

Novembro chega
na calma cinza de 
nenhum vento

O humor
se movimenta
a favor das velas
mesmo sem porto

Efeito girassol 
a mercê do tom
das nuvens

Esther Alcântara

Basket of sunshine #sunflowers perfect picture for my balck and white kitchen dazzled with sunflowers:
SINTAXE

O amor
tem sua própria
sintaxe:
sujeito e objeto
base
pra que o verbo
reverbere

Esther Alcântara

CHUVISCO

Ciscava o chão
na enxurrada
mas persistia 
- chuvisco -
bicho com fome
descalço 
de pés e pais

Acocorados
dormiam 
na emergência
sonhos a emergir
e não caíam de susto
com os ruídos
do estômago

Esther Alcântara

(Foto: Google Images - autoria desconhecida)

DECANTAÇÃO

Houve desgaste
nas articulações 
nenhum engate
de dedos

Decantou
os ventos do entorno
e os versos 
carentes de anverso

A voz ganhou cor
e o corpo ganhou
corpo mesmo

Esther Alcântara



IMÓVEL

A porta
entreaberta
a poeira
nas dobras dos
vínculos
no console 
de todos os 
veículos

E o peso
insondável
na asa
que não segura
a porta

Esther Alcântara

(Imagem: arte de Gerard Dillon, Door Ajar)


AMOR, OBJETO INANIMADO

Quando falei
de amor
não era sofisma
nem se pretendia
abalo sísmico

Era só meu 
melhor prisma
lambendo de luz
teu rosto
anímico

Pena que não
te animei

Esther Alcântara

(Imagem: Expansão, escultura de Paige Bradley)



DIA GRIS

Na ausência
do sol
 raios de sonho
em cadência
me enternecem
no arrebol
da vida de tantas
intermitências

Esther Alcântara

(Foto: Google/autoria desconhecida)

ESTADO DE COMO

Como engolir
sapos que viram
precipícios?

Como ancorar
destroços num mar
lacrimal?

Como absolver
o que não se pode
sorver?

Esther Alcântara

(Imagem: arte de Paula Bonet)
RECOLHEITA

Eu me inicio
em descabidos
dia sim, dia sim

Na recolheita
não me encolho
nem me agiganto

Meu eu silencia
ao ver na peneira
alguma poesia

Esther Alcântara

(Imagem: Dancing to the End of Love, 
de Rafal Olbinski)



AUSCULTA

Era um som longo 
entrecortado de brevidades 
silenciosas

Não cabia a ninguém 
qualquer incômodo
mas a delicadeza da escuta 
de corpo inteiro
a atenção plena e resoluta 
no absoluto

dos dias
da música
do mundo
da vida

Caberia a todos auscultar
e por contraste
não se ensimesmar
deixar que no peito
batesse o coração
do outro

Mas quem escuta?

Esther Alcântara


Era uma casa uma vez

ERA UMA CASA UMA VEZ

Era a nossa casa
tinha certeza.
Antevia os frutos 
que plantaríamos 
em cada cômodo.

O cachorro 
se via contente
sua molecagem 
percorria solta
toda a arquitetura

Da calçada
contempla agora
com olhos imersos
a liquidez dos sonhos 
que ficaram por viver.

Esther Alcântara

Imagem: Maison, de René Magritte


MUNDO DA LUA

A lua sorri
por um fio
à da Vinci

Vaidosa
na pele do céu
ela se tatua

Esther Alcântara 

(Imagem: Moonlight Sonata, 
de Marta Nardini)



ACABAMENTO

Nunca gostei de nada arrumado demais. Cabelo muito arrumado no dia a dia, daqueles que nenhum fio sai do lugar, sempre me transmitiram alguma tristeza; penso que faltou tomar chuva, sol, vento... viver. 

Assim é também com a casa, que gosto bem arrumada, mas sem ares de loja ou revista de decoração. Preciso ver algumas coisas fora do lugar - um livro aberto, um quadro torto, uma poeirinha num canto, o pelo ou o pulo do gato - para sentir-me à vontade e aconchegada; preciso ver algo de pessoal, que muda de lugar ou forma como a pessoa. Casa, para ser lar, tem de ter um toque de uso, algum sinal de que ali se vive e se curte as coisas triviais, qualquer sinal de presença. 

Também não gosto de ver agenda (escrita ou pensada) com todos os deveres cumpridos. Assusta-me a falta de falha, de lacuna.  Como chegar ao dia seguinte sem o desafio de encaixar uma pendência ou, quem sabe, a ousadia de jogá-la para o alto sem culpa nem desculpa? Como planejar tantos dias previamente e gostar do dever de nada ficar devendo? 

Preciso de uma dose de desarranjo para encontrar harmonia entre o que sou e o que posso ser, entre o que já vivo e o que posso viver. Só vejo a possibilidade de criar - e preciso criar - quando posso ver bem vivos os cabelos, as paredes e os dias. 

Não nasci formatada e nunca aceitei ser formatada. Sou dona das minhas edições e cuido para que os pitacos, mesmo os indiretos, não me engessem; quero estar sempre disposta a uma nova e melhorada versão de mim. 

Estar pronta e arrumada é estar finalizada; estar viva é aceitar que sempre é preciso algum acabamento.


Esther Alcântara
Afeto 

pelo fato
sem trato
pelo sonho
com maltrato
é apego

Amor

ora e vigia
não dorme
ao relento
nem suspira
desalento

Esther Alcântara

(Imagem: "Dancing with fireflies in starlight",





ENREDO

De passagem
não me rendo
à paisagem
da rotina

Todo dia
me enredo
no horizonte
de novo enredo

Esther Alcântara

(Imagem: "Chassis", Erin Case, 2014)

VIDA E VERSO

Não se pode
anular a morte
com um réquiem
nem resumir a vida
num epitáfio

A vida
e seu verso
ode sem fim
onde não existe
da capo

Esther Alcântara
PEQUINÊSES E PEQUENESAS

Enquanto os cães ladram 
(para uma) 
a caravana passa 
(ilesa)
e ladra

Esther Alcântara

PIRACEMA

Era piracema
e rio acima
eu fluía
e ria, ria, ria...
com meu riso solto
entre tuas águas
e tua melodia.

Era piracema
amor em desova
eu inverso
e rima, rima, rima...
na correnteza prosa
do leito do teu rio
em deleite e sina.

Esther Alcântara

(poema e imagem)

RELICÁRIO

Saudade 
coisa doída
redemoinho 
de vazios 
nunca vagos
lacunas 
dos que demos
guarida
nos recônditos 
nunca cômodos
da casa viva
presença 
sem corpo
e plena de cor
em nosso relicário 
de queridos que
se foram breve
a provar 
que só de leve

Esther Alcântara