LU LUZ

Ela tinha os olhos

de um azul marejado
profundo
de fazer inveja ao mar

e no olhar

a dor da peleja
com a brisa de amar

esse olhar amador

sem escudos
viu a luz
no escuro

e na poesia

pôs as máculas do mundo
pra quarar.

Esther Alcântara


[À amiga poetisa Luciane Lopes]



Imagem: María Chávez


NO DORSO DO POEMA

Não acredito
no lirismo cometido
feito jorro
antes do final
do jogo
que sentencia o poema
à poesia
nem no comedido
que arrasta palavras
em correntes.


Bendita, sim
a veemência passional
da preamar
e a violência doce
do canavial 
quando o melaço queima
nos cantos da boca
e mãos de pilão
medem a pitada de sal
no dorso do poema.


(Esther Alcântara - 21 fev. 2015)

[Aos queridos Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, que tanto ensinam aos poetas sobre como alisar e lustrar o dorso do poema.
Gratidão também à poetisa Adriane Garcia, por me fazer refletir sobre o assunto.]
Máquina de escrever pinturas 01
Imagem: Tyree Callaban 




DIAS E DIAS

Há dias de
rasante
pote vazio
estio
angustiante


Há dias de
vazante
maré alta
cor
radiante


(Esther Alcântara)
PITACO

Vivo querendo 
dar pitaco
no mundo!
Acho bem melhor
que dar piti
ou esperar a morte.


O buraco do mundo
é tão fundo
que cabe toda sorte
de sotaque
pra achar um norte.


(Esther Alcântara)
AUTOESTIMA

Quando mais

nos sentimos menos
ou mais ou menos
vem o passado
a nos lembrar
grandeza esquecida
e descortina
sem mais nem menos
riqueza adormecida
sonhos de luz
e sombra
arte viva
de acreditar
na vida.


Esther Alcântara

Foto: Domenico Salas
À REVELIA

Antigamente eu era
bem mais que era
bem infinito 
de vida por vir
personagens de vestir
irrestritos 
pra todo o sempre


esboços, desenhos
pinturas sem contorno
horizonte imaculado
que o olho seguia
sem maquiagem
ou máscara

eu toda 
à revelia.


(Esther Alcântara)
TERNURA TENRA

Se toda palavra 
fosse mais brinquedo
que lance de dardos
teríamos mais afagos
que fardos
mais aconchego
que medo.

E seríamos consumidos 
pela ternura tenra
dos que nada temem
lindamente devastadora
não devastada 
pelo mal que escorre
da boca.


(Esther Alcântara)
REDE

Se deito na rede
de pensamentos meus
e ateus
não é para apoiar paredes
mas destituí-las
instituindo-me fome e sede
de ideias
de mudança de paradigmas
que não me alicerçam
despindo-me para contemplar
dogmas que cerceiam 
o livre-pensar.
Não tente me render
à retórica do seu discurso
óbvio desvio
do ego.


(Esther Alcântara)

DIVA OU DIVÃ

Joga teu jogo
como se o amor
fosse mero lance
de dados
enquanto a pele
a pelo
espera teus dedos
sem zelo.

Quando tudo for sombra
Vou dizer que amei
sem telhado
que chovi alada
e me perdi à deriva
diva morta
no teu mar
de personagens
ou num divã.

(Esther Alcântara)

Noite alta

Penso que nada
falta
nem falta



Penso que tudo
sobra
me sopra


E chama o dia!

(Esther Alcântara)
3 jan. 2014
Imagem: Tomas ven Stein
FELIZ ANO NOVO

Eu novo
Eu de novo
Tudo novo
Tudo de novo


Só que não...

Aprendi com meu cão
A graça de passear
No mesmo território:
O xixi é novo!


(Esther Alcântara)
1 jan. 2015

MEU TOM

Amei 
de pronto
Amo 
e ponto.


Tentar entender
é perder o sentir
pelo sentido.


(Esther Alcântara)

Foto: Werner Viana
PALAVRA ALDRAVA

Andava solta
e de mãos dadas
com as palavras


Aldravas
de chaves-mestras
elas me abriram o mundo


Aldaz
com elas velejei, versejei
para além do meu alpendre.


(Esther Alcântara)
DE CERNE
De nascença
trago um segredo
tatuado no cerne

e um arvoredo
que não discerne
folhas verdes e secas
cresce, cresce
a olhos vivos

Talvez me pertença
viver pios e arrepios
bem além da epiderme

(Esther Alcântara)
AMOR DE AMOR

Amei o amor
desde o primeiro instante
olho no olho
o coração gritando
não para, dispara!

Díspares
minhas impressões
indigitáveis
saudaram grandes
intenções

Assim é até hoje
tudo tão intenso que
se me penso
o coração infla e grita
por amor, prossiga!

Esther Alcântara
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Imagem: René Gruau


SUA LUA

Moro na lua
e não me demoro
quando o sol
recua:


é quando decoro
a casa que sou
naquela que é sua.

(Esther Alcântara)


AROMA

Ah, meu moreno
só me basta
este aroma de murta
na noite morna
pra que eu me abasteça
de amor
e transborde
bordados de luz
no teu olhar
e frescor de sereno
a te orvalhar


(Esther Alcântara)
PALAVRA PLENA

Porque sou poeta
não esperem de mim
o mundo da lua
o verbo sem rasgos
algo que dilua
engasgos
ou que alise
sem peso
palavra pena

Porque sou poeta
preciso e aprecio
palavra plena

Esther Alcântara
5 nov 2014




UMIDADE

O cheiro da chuva
despertou a tarde
em meus olhos
carentes de manhã
contentes de
umidade

Embriagados
em goles de esperança
sonham vislumbrar
 em exuberância
na noite a diva
tempestade

Esther Alcântara
5 nov. 2014




Se o mundo
muda de lado
não fico muda
me sinto surda
conto miúdos
permito o surto
giro no espaço
reviro buracos
cavoco moradas
perco o prumo
deixo a plumagem
curvo a cabeça
choro à beça
esvazio o caos
esboço coragem
reviso a fé
solto o leme
seguro milagre
aumento migalha
me dengo até
afago os foles
suspiro afeto
colho cores
dou-me tempo
escolho flores
delicadeza

Esther Alcântara 
04/11/2014


Bodas de algodão

BODAS DE ALGODÃO

Não sei se foi o acaso
ou um ato camicase
mas um dia bem disse
eu caso!

O tempo tem bendito 
amem, amém
e o que foi enlace
 agora é laço!


Esther Alcântara
3 nov 2014


LIQUIDAÇÃO

Não sou sábia
nem sensata
quem dirá santa?

Se sou sólida
nem sei

não estou sóbria
pra tanto assuntar

A liquidez saboreio
de meus sonhos
que nunca ponho
em liquidação.

(Esther Alcântara)
Cantarolar

O jeito é cantarolar
e se safar da dor
que rima desamor
no ruído do mundo
achar a boa voz
e a alma do som
em veios profundos
de veredas tortas
e no verso bom

O jeito é cantarolar
deixar fluir de cor
o tom de tom melhor
rever cada pegada
na trilha sincopada
da sonora vida 
e ainda ser capaz
na canção colhida
de encontrar a paz

Esther Alcântara
5 ago. 2014





LAÇO 

Meus lábios 
Andam no encalço 
do verso do verbo 
avesso a soluços 
nu de percalço
e soslaio
fluente em flor
enlace sem siso
todo sorriso
em conciso laço
de abraço.

(Esther Alcântara)


Atlas 

Quase te piso

e meus olhos 
que dia a dia
ensaiam cegueira
já não ousam
nem no íntimo
simular indiferença
a teu repouso
de atlas cansado
do mundo da calçada
teus olhos baços
teu nu autoabraço
nenhuma crença
ou fé de criança
sem passado
quem dera força 
pra predizer
- até amanhã!


Esther Alcântara

1 ago. 2014

Era a vida
Num perder de vista
Sob a lua suspensa
Sobre luz de alpendres
em noites simples
Com perfume de murta

E vieram varandas
Plenas de suspense
E delírio
Sobre o silêncio
Que vaga no vento
Aos gritos

De sobremesa
Terá de vir quintal
Com brotos de surpresa
A expandir o peito
E distrair cansaços
No parapeito

(Esther Alcântara)

1 julho 2014

É cedo 
e é sábado
mas já tem fadiga
pó e correria
e já tem corrente
no encalço dos pés
e gente conformada
com a vida em viés
no ônibus compressa

Engulo comprimido
sem dó nem água
pra dor de dente
pra não ter mágoa
pra pegar no tranco
cheia de trincos
e me fazer contente
com qualquer asa
que se faz urgente

(Esther Alcântara)

21 junho 2014

FÔLEGO

Resgato-me
do musgo impregnado
no muro mais puído
pelo murro
pela marra
em novo fluir
de fôlego
novo regalo
novo regato

Esther Alcântara
15/05/2014



Espalhe poesia
todo santo dia
até que todo santo
seja o seu dia
e todo o seu dia
Espelhe poesia

Esther Alcântara
12/05/2014


ALENTO

para o poema
tem me faltado
tempo 
de invento 

de alento
campo
tem me sobrado
para a poesia


Esther Alcântara (poema e foto)
11/05/2014

FORÇA

FORÇA

O que fomenta
meu movimento
e a vida fermenta
é a poeira da trilha
o quarto minguante
de luz e mobília
a certeza do avanço
mesmo que oscilante
entre solavancos
e nenhuma chance
de escolher ser
café com leite
e encolher.

Esther Alcântara