NOITE DE FREVO

Teatro cheio e a orquestra lança um frevo assanhado. Vagner Tiso se empolga no piano, enquanto eu, no balcão superior, tenho sanhas de um bom salto. Penso na morte ao ritmo do frevo, com regência... Minha barriga reage com calafrios ao imaginar o vazio do salto ou o salto no vazio. O verdadeiro climax? Talvez seja quando a vida está por um acorde e a morte é quase um golpe de sorte! Porque se
a morte não vem antes que a música se acabe, é preciso prosseguir, à mercê da falta de magia. Soam os clarins e percebo que minha morte se atrasou, perdeu o momento da anunciação. Bem, talvez ela não tenha sensibilidade artística, pois vir me buscar justamente durante um frevo? Quer mais vida que no frevo? Morte confusa, vida difusa... Grudada na cadeira, algo em mim levita. Minha vida se alimenta do frevo, embora eu nem me favoreça da alegria.

Esther Alcântara

Um comentário:

sonia disse...

sensacional esse conto!!!